Motoristas de aplicativos como Uber, 99 e Cabify precisaram se virar nos 30 para sobreviver à queda nos ganhos durante a pandemia de coronavírus. Com o isolamento social, as pessoas reduziram em cerca de 50% os gastos com apps de transporte, o que impactou diretamente nos rendimentos desses profissionais.

Entre as estratégias adotadas pelos motoristas está desde a ampliação das horas trabalhadas até assumir novas funções, como entrega de comida, de mercadorias, além de fazer compras de supermercado. Mesmo assim, muitos não conseguem arcar com os custos do veículo e estão preferindo parar de trabalhar com apps de transporte.

Como assim entrega de mercadorias e de comida? Essas três empresas de transporte por aplicativo lançaram a modalidade de entrega de mercadorias durante a pandemia, período em que as pessoas passaram a comprar mais produtos pela internet. Essa forma de consumo aumentou a  demanda por serviços de entrega.

Carolinne Iglesias, head de parcerias e marketing da Cabify, diz que os motoristas têm a possibilidade de aceitar ou não fazer entregas. “A grande maioria acaba aceitando, porque não tem muita opção e depende desse serviço para sobreviver.”

E entrega de comida? Motoristas que atendem a Uber também podem aceitar fazer entrega de refeições para o Uber Eats. A diferença entre eles e os entregadores de iFood e Rappi é que a entrega é feita de carro, o que pode atrapalhar na hora de achar lugar para estacionar em frente ao restaurante ou no endereço do cliente.

Motoristas ouvidos pelo 6 Minutos contaram que já foram multados porque estacionaram em local proibido. Apesar das dificuldades, os profissionais aceitam esse tipo de serviço porque caiu muito o transporte de passageiros.

E onde é que entra a compra de supermercado? A Uber comprou a Cornershop, empresa que faz compras e entregas de supermercado, nos mesmos moldes da Rappi e do James Delivery. Motoristas parceiros do Uber também podem se cadastrar para fazer compras e entregas para a Cornershop.

E o aumento do horário de trabalho? O bombeiro civil Roni Ferreira dos Santos, que trabalha como motorista de aplicativo há três anos, viu seus ganhos derreterem desde o início da pandemia. Antes, ele começava a rodar às 5h, parava às 11h e voltava às 16h. “Voltava para casa, descansava, retornava e ia direto até umas 23h.” Dava para tirar de R$ 300 a R$ 400 por dia.

Agora, ele começa às 3h, só para para almoçar, e trabalha até as 22h. Mesmo trabalhando tantas horas, seus ganhos diários variam de R$ 150 a R$ 200.

Roni diz que precisa garantir um mínimo de ganho diário, pois tem que pagar o aluguel do carro, pensão para o filho e o aluguel da casa em que mora.

Para se adaptar à crise, Roni também mudou a categoria de carro que utiliza. Antes, usava um Influence para fazer viagens executivas. Agora, roda com uma Spin, que é mais econômica. “Trabalhei todos os dias da quarentena, porque não posso parar. Minha estratégia é começar o mais cedo possível. E aceito Uber Eats, entrega de mercadoria e faço supermercado.”

Das novas atribuições, a que mais vem rendendo é a entrega de supermercado. “Normalmente são viagens curtas, o gasto com combustível é menor, e a gente ganha pelo tamanho da lista de compras.”

Como os motoristas estão sobrevivendo? Não estão, segundo Rogério Isaias da Silva, diretor do Sindicato dos Motoristas de Aplicativos do Estado de São Paulo. “A maioria está devolvendo os carros para as locadoras e passando necessidade.”

Segundo ele, mesmo as compras de supermercado pagam muito pouco. “Outro dia fiz uma entrega que pagou R$ 6,50, o app ficou com R$ 2, sobrou R$ 4,50, ou seja, deu para pagar o combustível. Paguei para trabalhar.”

Silva diz que os motoristas estão devolvendo os carros porque não conseguem mais tirar o suficiente para pagar os gastos com aluguel de veículo, combustível, seguro. “Mesmo trabalhando 12 horas por dia não sobra para se sustentar.”

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