As crianças têm uma natureza espontânea, curiosa, criativa, sonham sem limite nem moderação. Acreditam que podem ser, ter e fazer tudo aquilo que quiserem. Para elas, nada é difícil, muito menos impossível. Dependendo das companhias que têm, das experiências que vivem, dos lugares que frequentam e das situações e exemplos a que são expostas, porém, com o passar do tempo, ao crescerem, suas motivações e anseios não raro são deixados de lado.

Afinal, não é fácil remar contra a maré para buscar o que realmente se quer. “Isso não dá dinheiro”, “você não nasceu para essas coisas”, “quero que seja médico, como seu tio”, “isso não é profissão”.

Quem nunca escutou pelo menos uma dessas frases? Como resultado, muitos acabam frustrados ao trabalhar no que não gostam ou seguindo expectativas e sonhos de terceiros.

Diante disso, sorte dos que desde a infância – período em que nossa personalidade está em franca expansão – são estimulados a desenvolver uma mentalidade empreendedora, a fim de construírem as próprias oportunidades na vida, tornando-se adultos independentes e protagonistas de seu futuro.

“Apesar do nome, a cultura empreendedora não está associada apenas à abertura de um CNPJ. O conceito, bem mais amplo, visa incentivar crianças e jovens a descobrirem o que os move, além de aprender e colocar em pratica habilidades socioemocionais, as chamadas de soft skills, que têm ganhado força nos últimos anos, principalmente a partir dos novos desafios trazidos pela pandemia e pela aceleração digital”, explica Evandro Conti, CEO da Eu S/A Escola de Empreendedorismo, que, por meio de atividades lúdicas e apropriadas para cada faixa etária, trabalha com um público de 4 a 16 anos dentro dos pilares “aprender a conhecer”, “aprender a fazer”, “aprender a conviver” e “aprender a ser”.

“Nosso objetivo é a formação integral dos indivíduos, tornando-os aptos, entre outras coisas, a controlar suas emoções, demonstrar empatia, manter relações sociais positivas e tomar decisões assertivas e responsáveis, melhorando, desta forma, suas perspectivas frente aos desafios nos estudos, nos negócios e na vida.”

O papel da família

Levando em consideração que o ensino tradicional ainda responde com modelos criados para atender demandas antigas, restringindo-se à mera transmissão de conteúdo, cabe sobretudo aos pais incorporarem estratégias de aprendizagem mais flexíveis e abrangentes na criação de seus filhos. E, para tanto, não é preciso ser nenhum expert.

Basta observar, dialogar, estar presente e aproveitar atividades e situações do cotidiano para transmitir conceitos como determinação, resiliência, proatividade, persistência, colaboração e foco. E outros, mais específicos, tais como planejamento, pensamento crítico, escuta ativa, gerenciamento de pequenos conflitos, educação financeira e por aí afora. Tudo isso de forma natural e divertida, sem forçar a barra e evitando didatismos ou longos discursos.

“Não existe uma receita de bolo, cada família tem seu método. No meu caso, a forma que encontrei de amar meus filhos não foi por meio da superproteção, mas pelo exemplo e pelo ensinamento. Fui sempre o cara que ‘incomodou’, que falava de problemas dentro de casa, dando espaço para que pudessem encontrar soluções criativas e pensassem além do óbvio”, conta o empreendedor João Kepler, CEO da Bossanova Investimentos, autor dos livros “Ensinando Filhos para Empreender” e “Se Vira, Moleque” e pai de Theo (22), Davi (20) e Maria (17).

“Minha finalidade maior era instigá-los a descobrir seus talentos, na base do teste e da validação, sem dar o caminho, nem facilitá-lo. Nunca receberam mesada, por exemplo, o que os obrigou a serem criativos e determinados para ir atrás do próprio dinheiro desde cedo.”

Coincidência ou não, seus três filhos tornaram-se empreendedores ainda na adolescência. Davi, inclusive, participou, aos 14 anos, do Shark Tank Brasil, apresentando um aplicativo que, idealizado por ele, agiliza a compra de material escolar sem precisar ir à livraria, o List-it. Para isso, basta preencher os campos com o nome do colégio e a série do aluno para que todos os itens apareçam assinalados. O projeto foi elogiado durante o programa, mas não chegou a receber financiamento dos “tubarões”.

Ao telefonar para o pai para contar sobre a negativa, Kepler aproveitou para oferecer ao filho mais uma importante lição. “Eu disse a ele que havia poucas coisas na vida mais educadoras do que um belo ‘não’ na boca do estômago. Dito e feito. A partir dali, foi só crescimento e evolução”, diz ele.

Da teoria à prática

Em sua famosa palestra no Ted Talks sobre como criar os filhos para serem empreendedores, Cameron Herald, autor best-seller e especialista amplamente respeitado na área de mindset empreendedor, elenca uma dúzia de habilidades básicas a serem captadas pela prole desde a mais tenra idade. São elas:

1.enxergar soluções

2. resolver problemas

3. fazer perguntas

4. ser criativo

5. liderar outros

6. aprender com os erros

7. economizar dinheiro

8. querer fazer dinheiro

9. saber vender

10. pedir ajuda

11. falar em público

12. nunca desistir

“As crianças estão sempre querendo saber a respeito de tudo, o que acontece principalmente durante a ida a um restaurante ou numa loja de veículos, ocasiões que as ajudam, logo cedo, a compreender noções de oferta e demanda, venda e troca, ganho e negociação etc.”, explica Orlando Paixão, especialista em neurociências, comportamento humano e filosofia da mente. “Até mesmo através de jogos infantis, como o Banco Imobiliário, se pode tirar ensinamentos definidores de projetos futuros.”

E as oportunidades para transmitir aprendizados essenciais às crianças e jovens não param por aí. A seguir, algumas dicas práticas:

• em vez de ler para seu filho todas as noites, faça com que ele crie e conte suas próprias histórias;

• incentive-os a falar diante de pequenas audiências para treinar a comunicação e a oratória;

• em vez de dar mesada, mostre o jardim ou a garagem e pergunte que tipo de serviço ele sugere ser feito ali para receber uma remuneração justa – a ser negociada posteriormente de acordo com a ideia e o capricho do trabalho executado;

• sugira a ele que reserve parte do dinheiro para gastar no que quiser, e outra para poupar em prol de coisas maiores e mais importantes no futuro;

• incentive-o a conversar com um feirante (para entender o caminho dos produtos do cultivo à mesa) ou com o dono do restaurante (para saber mais sobre como ele consegue atrair seus clientes);

• pergunte o que seu filho quer ser quando crescer. Jogador de futebol? Ótimo. Quem é seu ídolo maior? Cristiano Ronaldo? Pronto, eis o seu gancho. Quais são, a seu ver, as principais características do jogador e o que o fez chegar até onde chegou? Pois é, ele dá duro nos treinos (disciplina e foco), incentiva o time (espírito coletivo e colaboração), tem muita gana de vencer (determinação e automotivação), é um dos atletas que mais doa dinheiro para instituições de caridade (cidadania e solidariedade) etc.;

• ao ir a algum estabelecimento, faça com que seu filho perceba a diferença entre um serviço e atendimento excelentes – e aqueles que deixam a desejar;

• pergunte a ele o que acha de vender seus brinquedos antigos e, a partir daí, sugira a ele pensar no preço, na estratégia de vendas, no público-alvo, na divulgação da “lojinha” etc., tornando a atividade uma grande brincadeira;

• deixe por conta dele planejar o próximo passeio em família, ou a festinha de aniversário.

Na escola

Ao redor do mundo, países como Estados Unidos, Japão, Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia, Hong Kong e Singapura aderiram ao aprendizado social e emocional, base da cultura empreendedora, já na segunda metade dos anos 1990. Como resultado, obtiveram diminuição nos níveis de absenteísmo escolar, melhoria das notas e redução da violência.

No Brasil, a iniciativa ganhou força somente a partir de 2018, quando o Ministério da Educação e Cultura, por meio da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), incluiu seis competências socioemocionais a serem gradualmente trabalhadas na educação básica: comunicação; trabalho e projeto de vida; argumentação; autoconhecimento e autocuidado; empatia e cooperação; e responsabilidade e cidadania.

A introdução de habilidades empreendedoras, em especial, está prevista para acontecer a partir de 2022 e fará parte do currículo do Ensino Médio. Entre elas estão criatividade, inovação, organização, visão de futuro, tomada de riscos, resiliência e curiosidade científica, por meio das quais espera-se que os estudantes mobilizem conhecimentos, habilidades, atitudes e valores para resolver demandas complexas relacionadas às suas escolhas pessoais e profissionais, além de favorecer sua inclusão social e empregabilidade.

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