A rotina de home office obrigatório em tempos de pandemia está sobrecarregando muito mais as funcionárias com filhos do que seus pares masculinos. Salvo raríssimas exceções, ainda cabe à mulher a responsabilidade pela maior parte das tarefas domésticas. Além de dar conta do próprio trabalho e da casa, a mãe ainda precisa se virar nos 30 para cuidar dos filhos e ajudá-los com aulas a distância. Tudo isso em 24 horas, claro.

Lógico que essa conta não fecha. Afinal, para as mulheres, cuidar dos filhos não se resume a garantir a alimentação e higiene. Cuidar inclui brincar, conversar, dar atenção. Como elas não conseguem dar conta de tudo isso, a maioria começa a se sentir frustrada.

Pesquisa realizada pela Catho mostra que as maiores dificuldades de trabalho para as mães em trabalho remoto são conciliar isolamento social e saúde mental (42,5%) e conciliar trabalho, tarefas domésticas e filhos (40,5%). Das que disseram ter sofrido piora da saúde emocional, 79% afirmaram sentir sintomas de ansiedade.

“Recebo mensagens de várias mulheres dizendo que sentem que não estão dando conta. O recado que quero dar para elas é: o problema não é você, essa é uma situação muito maior, todo mundo está se sentindo assim. Não se cobre tanto”, diz Tabitha Laurino, gerente-sênior da Catho.

Menos culpa

Nenhuma mãe quer deixar o filho em frente às telas de TV, smartphone e computador o dia inteiro. Mas está sendo praticamente impossível seguir as diretrizes médicas, que recomendam no máximo duas horas de tela para crianças entre 6 e 10 anos por exemplo.

“As mulheres se sentem muito culpadas porque os filhos estão passando muito tempo em frente às telas. É preciso tirar um pouco dessa culpa, pois estamos vivendo uma situação atípica. Se ficar um pouco a mais agora, não tem problema”, diz Tabitha.

Menos cobrança

As mães não estão dando conta de todo o trabalho? Não é preciso se cobrar tanto. “Além disso, nesse ciclo é importante estarmos ciente que se faz o melhor possível, reconhecendo que somos seres humanos, não máquinas. Não podemos nos culpar, tampouco pedir desculpas pela alta demanda que afeta as nossas vidas”, afirma Mariana Luz, CEO da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal.

O que a empresa pode fazer para ajudar essas mães?

Tabitha e Mariana defendem que as empresas tenham um olhar mais compreensivo para as funcionárias com filhos. Não significa exigir menos produtividade ou qualidade da entrega, mas entender que elas precisam de mais flexibilidade de trabalho, principalmente na quarentena.

“As empresas precisam entender que esse momento é uma realidade bem diferente para elas, como corporação, mas também para suas esquipes e, em especial, para as suas funcionárias com filhos pequenos. […]. Nessa fase, as crianças têm uma relação de dependência enorme com os adultos responsáveis por elas. E além dos cuidados básicos como dar banho, alimentá-las e colocá-las para dormir, os empregadores precisam entender que as mães também precisam dar atenção, atender demandas urgentes e brincar com as crianças”, diz Mariana.

Por isso, Tabitha sugere que os empregadores perguntem às funcionárias com filhos se o horário da reunião é adequado para ela – pode ser que seja ótimo para empresa, mas bate com a hora da videoaula da criança.

Tudo bem ter interferências nas reuniões

Sabe aquele olhar compreensivo que falamos antes? Isso vale mais do que nunca para mulheres com filhos, já que não dá para prendê-los num quarto toda vez que tiver de participar de uma reunião.

“É preciso entender que tudo bem ouvir grito, choro, correria ou criança chamando a mãe durante uma reunião, faz parte”, afirma Tabitha.

O que você pode fazer por você

Arrume um tempo só para você. Esse é o segredo para garantir sua saúde emocional mesmo com todo o peso do home office, tarefas domésticas e cuidados com o filho.

“Devemos administrar bem o tempo para também cuidar de nós mesmas. Seja reservar um tempo para assistir a um filme, conversar com amigos e familiares pelas redes sociais, fazer uma meditação, algum exercício em casa. Esse autocuidado é essencial para conseguir estar bem e ter energia”, afirma Mariana.

Tabitha diz que esse tempo pode ser até a hora do banho. Mas ela sugere um pouco de organização para achar esses minutinhos. “É preciso planejar o dia, endereçando as tarefas que precisam ser feitas, dividindo-as com outros membros da família. Separe um tempo para si, nem que sejam 10 minutos de banho, leitura, um tempo para relaxar e respirar.”

Como ficam os filhos?

Mariana, da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, alerta para o papel das empresas no cuidado das crianças. “As empresas precisam entender que em um momento de tensão como o que estamos vivendo a quase dois meses, é esperado que as crianças estejam mais sensíveis, com comportamentos diferentes dos habituais. Ter ao lado adultos que consigam ter estabilidade para transmitir afeto e segurança fará toda a diferença. As empresas têm um papel crucial para garantir tal disponibilidade, que não é apenas de tempo, mas também emocional.”

Qual o recado final?

Vamos voltar lá para o começo: não se culpe, não exija tanto de você. “Devemos olhar com mais empatia para nós mesmas. Será que está dando tudo errado mesmo ou estamos em uma busca eterna de uma perfeição utópica. Respire fundo e busque avaliar a situação com serenidade para agir e combater o que incomoda”, afirma Mariana.

Para ela, este pode ser um momento de oportunidade. “Quantas mães se culpavam por sair cedo e voltar apenas para colocar as crianças para dormir? Agora temos o dia todo com eles. Meu convite é para, juntos, tornarmos esses momentos ricos e prazerosos. Não deixemos essa oportunidade passar.”

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