Nada mais incorreto – e injusto – do que a noção de que as mulheres se tornam mais improdutivas, dispersas e descomprometidas quando têm filhos. Ao contrário do que muitos pensam, diversos estudos vêm mostrando que a maternidade oferece uma acelerada curva de aprendizagem no que se refere ao desenvolvimento de habilidades sócioemocionais altamente valorizadas pelas empresas – tais como pragmatismo, resiliência, concentração, criatividade, planejamento e paciência.

Como resultado dessas e outras tantas soft skills adquiridas pelo “intensivão materno”, dizem os especialistas, as mães tendem a ser mais eficientes, focadas e confiantes para encarar os problemas do dia a dia, dos simples aos complexos. E, mais do que isso, para exercerem uma liderança empática, considerada a chave para a criação de uma cultura corporativa saudável.

De acordo com pesquisa da Clark University e do Center for Creative Leadership em Greensboro, Carolina do Norte, além de se tornarem multitarefas brilhantes, elas passam a ter um melhor desempenho no trabalho, destacando-se em quesitos como gerenciamento de estresse, resolução de conflitos e negociação.

“Habilidades parentais e gerenciais simplesmente se sobrepõem, e a única maneira de aprender é vivenciando-as”, afirmam os pesquisadores.

Ambição e perspectiva

Outro estudo interessante, feito pela McKinsey & Company, descobriu que mulheres com filhos têm em média 15% a mais de interesse por cargos executivos de alto escalão do que mulheres sem filhos. Mãe de duas meninas (Maya, de um ano, e Layla, de três anos), Mariana Maraccini, diretora regional de estratégia para Product Supply da Bayer Crop Science, se identifica com a estatística. “Sempre fui competitiva e nunca deixei de querer galgar degraus na hierarquia das empresas. Mesmo assim, antes de ter minhas filhas eu achava que ficaria satisfeita quando alcançasse um cargo de direção, mas agora penso em continuar crescendo e ganhando novas responsabilidades e atribuições”, conta ela, que, promovida duas vezes, na própria Bayer, durante ambas as gestações, é categórica ao afirmar que a maternidade não foi nada além de uma influência positiva para sua carreira.

Mais do que ter sua ambição renovada, ser mãe fez com que a executiva se tornasse bastante estratégica com seu tempo, bem menos elástico do que alguns anos atrás. “Até o nascimento da minha primeira filha eu era meio centralizadora, perfeccionista e para mim era comum trabalhar das 7h até altas horas da noite, bem como levar trabalho para casa. Hoje, posso dizer que no final do dia ‘praticamente nada fica no meu prato’”, explica ela. “Afinal, tenho de dar conta de tudo até as 18h, quando passo a assumir integralmente a casa e as crianças, o que me levou a tomar decisões melhores e mais rápidas, e a entender a importância de priorizar, delegar e simplificar. Sem falar que tenho aprendido a ser mais empática, experimentar coisas diferentes e assumir mais riscos.”

A mudança de perspectiva atribuída à maternidade, aliada ao surgimento de um propósito de vida maior, levou Mariana, cerca de três anos atrás, a liderar um grupo de afinidades da Bayer voltado para o acolhimento de mães e pais dentro da companhia – que inclui rodas de conversas periódicas sobre temas e preocupações comuns. “Antes, meu foco estava basicamente em meus projetos, minhas entregas e meus resultados, mas desde que virei mãe passei a enxergar as coisas de um ângulo bem mais amplo”, diz ela, que recentemente também passou a se envolver com assuntos relacionados ao pilar de sustentabilidade da companhia. “Outro dia, eu e minha família passamos pelo rio Tietê, aqui em São Paulo, quando minha filha mais velha disse que iria chamar os amigos para ajudar a limpá-lo, e aí também pensei em chamar os meus, lá da empresa”, brinca a executiva.

O custo da maternidade

Ao contrário de muitas mulheres, Mariana tem o privilégio de contar com uma rede pessoal de apoio para lidar tanto com as tarefas domésticas quanto com os cuidados com a prole. E, ainda, de trabalhar em uma empresa que tem como política valorizar as mulheres grávidas e com filhos – e não penalizá-las, como muitas até hoje fazem. É o chamado “custo da maternidade” ou, como classificou o The Economist, a “pena da maternidade”, que prevê que as mães profissionais ganhem menos, ocupem postos de trabalho considerados de menor importância e tenham mais dificuldade para decolar na carreira após terem filhos.

Esse cenário é comprovado por meio da pesquisa feita pela MindMiners em 2017, em que 47% das entrevistadas se sentiram rejeitadas em um processo seletivo por terem filhos ou mesmo por desejarem ser mãe. Outras 46% foram vistas com maus olhos no trabalho quando precisaram lidar com alguma situação relacionada aos filhos. A evolução desse tema, segundo os especialistas, passa pela inovação nas relações de trabalho e pelo genuíno acolhimento, por parte das organizações, das demandas de pais e mães trabalhadores. Jornadas flexíveis, vagas compartilhadas, retorno gradual, licença parental e o trabalho remoto são algumas das tendências neste sentido.

Nascer de novo

Vida corporativa à parte, há ainda muitas mulheres que optam por aproveitar a experiência adquirida no “laboratório de inovação da maternidade” para, digamos, nascer novamente. No caso, como empreendedoras. De acordo com uma pesquisa do Sebrae, nada menos que 75% dos novos negócios liderados por elas são criados justamente a partir daí. Lory Buffara, mãe de dois meninos (Enrico, de 9 anos e Antonio, de 7) é uma das que ganharam o impulso de que precisava para abrir sua própria empresa: a Mommy’s Concierge, consultoria de enxoval para bebês com atuação no Brasil e mais seis grandes cidades nos Estados Unidos.

Formada em negócios da moda, antes da maternidade ela fez carreira em empresas do segmento. Foi quando se casou e acabou se mudando, com o marido, para a Flórida, onde vive até hoje. “O fato de ser mãe me mostrou o quanto o equilíbrio entre o trabalho e os filhos é essencial, o que me fez vislumbrar novas possibilidades de atuação profissional”, afirma a empresária, que atualmente emprega cerca de 20 mulheres, entre personal shoppers, profissionais de marketing e relações públicas. Quase todas elas, mães.

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