Danielle Torres já tinha uma carreira de sucesso na KPMG quando decidiu se assumir como mulher. Ela costuma aparecer em reportagens sobre inclusão do trans no mercado de trabalho. Afinal, tem um cargo reservado a poucos: é sócia-diretora de práticas profissionais da KPMG.

Em entrevista ao 6 Minutos, ela conta que não imaginou que sua caminhada serviria se referência sobre esse tema. “Confesso que jamais imaginei que a minha história geraria algum interesse. Para mim não é mais do que a jornada de uma pessoa trans que um dia se encontrou. Mas reconheço que aos olhos de terceiros é uma caminhada de superação.”

Leia abaixo entrevista de Danielle para o 6 Minutos.

Como a transição de gênero impactou sua carreira?

Do meu ponto de vista, não senti grandes impactos. A principal diferença é que ficou mais fácil me dedicar ao trabalho, uma vez que não precisei investir tanto tempo e energia sustentando alguém que não sou.

Em paralelo, eu direcionei minha carreira para áreas técnicas, o que aumentou a minha exposição dentro da minha organização e em mercados globais, inclusive com expatriações que realizei. Anteriormente, eu me concentrava em uma unidade específica e local de atuação. Esse era porém um plano de carreira que já vinha desenvolvendo e trilhando caminhos. Apenas teve um timing similar.

Algo diferente é que passei a voluntariar-me para palestrar a respeito da minha jornada. Confesso que jamais imaginei que a minha história geraria algum interesse. Para mim não é mais do que a jornada de uma pessoa trans que um dia se encontrou. Mas reconheço que aos olhos de terceiros é uma caminhada de superação. Talvez por isso ela encontre eco em diferentes oportunidades. Até o momento, já palestrei para mais de uma centena de organizações de todo o mundo e em diversos idiomas. Milhares de pessoas conhecem o meu caminhar. Isso sem dúvida é algo especial.

Em tempo, preciso ressaltar que não sinto que houve uma transição de gênero em meu íntimo. Talvez para o social tenha ocorrido. E em alguns aspectos práticos do meu viver também. Porém, eu sempre fui a mesma pessoa e continuo a ser. Esse é naturalmente um aspecto interpretativo pessoal e uma longa história. Geralmente conto em minhas palestras.

Você acredita que seu exemplo foi inspiração para outras pessoas iniciarem processos de transição?

Talvez. Mas olhando para a minha própria vivência, motivações e percepções quanto ao meu gênero, não acredito que necessariamente exista uma relação direta.

Naturalmente inspirei-me nas jornadas de algumas mulheres trans que admiro. Assim como também na caminhada de algumas pessoas LGBTQI+ e outras que não se identificam como pertencentes a esse grupo. Considero que histórias de superação, honestidade e sinceridade são inspiradoras e contribuíram para o meu próprio despertar.

Mas não foi por terceiros que assimilei quem sou, muito menos poderia deixar de ser quem sou na eventual ausência destes. A compreensão de gênero foi para mim, em primeiro lugar, algo pessoal e individual. Imagino que outras pessoas trans experimentem sensações semelhantes.

Você acha q ter feito a transição já adulta, formada e estabelecida na carreira ajudou a eliminar eventuais barreiras ou preconceitos?

Não. Preconceito esteve presente desde sempre em minha vida e, infelizmente, continuará a estar. Aprendi com o tempo a lidar melhor com ele. Esse é um dos motivos pelos quais considero desafiador o interpretar da minha vivência a partir da ênfase em uma transição de gênero. Parece assim que houve uma grande mudança e que a partir daí os obstáculos se iniciaram.

Obstáculos sempre existiram. Não sinto que a forma que apresento o meu gênero tenha uma relação direta com o preconceito que vivo. O que percebo é que a manifestação desse preconceito decorre do fato de eu demonstrar de maneira que me é natural um lado interpretado socialmente como feminino. Isso independente da minha aparência, afinal, sempre esteve associado ao meu comportamento e personalidade em primeiro lugar.

Percebo que algumas pessoas imaginam que minhas conquistas profissionais estejam ligadas ao meu gênero. Nessa interpretação, indevidamente, o masculino é geralmente associado ao sucesso e uma eventual estagnação após a chamada transição. Da minha perspectiva aprecio que caminhos poderiam ter sido diferentes em minha vida, mas não percebo a transição como um fator relevante para a minha carreira.

Qual a parte mais difícil de ser uma trans-feminina no mercado de trabalho?

Eu não paro para pensar muito a esse respeito. Sinto uma similaridade nos desafios que enfrentei na minha jornada profissional em relação aos que algumas colegas mulheres cisgênero relatam, envolvendo o meu senso de merecimento próprio, reconhecimento de meus talentos, situar-me e crescer em ambientes predominantemente masculinos, entre outros aspectos.

Especificamente por eu ser trans, sinto uma tendência de algumas pessoas imaginarem que a minha profissão é exclusivamente representar a diversidade. Isso revela uma linha de pensamento enviesada e que talvez possa impactar em maior ou menor grau na percepção de terceiros sobre a minha progressão profissional.

O principal ponto é que vivi uma jornada sozinha. Tenho sim muitas pessoas queridas a minha volta e aprecio o valor que cada uma delas representa para mim. Mas não deixo de ser única em muitos contextos que vivo e invariavelmente sigo um caminho próprio.

O que pode ser feito pra quebrar essas barreiras?

Diálogo. Quando ouvimos a história de outras pessoas temos a oportunidade de perceber que a forma que imaginávamos a vida de terceiros provavelmente partiu de uma concepção prévia e que não encontra real amplitude. Acredito que se olharmos de perto, somos todos diversos e de uma maneira curiosa temos mais aspectos em comum com o próximo do que muitas vezes consideramos.

Ao partirmos do ponto que somos, em primeiro lugar, todos seres humanos podemos reconhecer a nossa pluralidade não como diferença mas como oportunidade.

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