O home office vem mudando a forma como as pessoas trabalham e se relacionam com os colegas de empresa. Por mais que o trabalho remoto possa trazer vantagens, como a redução do tempo no trânsito, alguns especialistas dizem que pode ser uma ameaça à cultura das organizações. O entendimento é que a cultura se constrói no dia a dia e coletivamente.

Mas há quem enxergue no home office uma oportunidade para o fortalecimento da cultura da companhia. Para esses, a adesão à cultura não depende da proximidade física entre os colaboradores e a convivência pode ser compensada virtualmente.

Com opiniões tão opostas, dá para saber qual delas reflete mais a realidade? Não existe verdade absoluta que serve para toda empresa, principalmente quando se trata de cultura. Tudo vai depender do tipo da companhia, do momento que ela está vivendo e do quanto a cultura está amadurecida internamente. Por isso, a distância pode fazer mais diferença para algumas do que para outras.

Mas o que é cultura? Nas palavras de Guilherme Marback, sócio-diretor e head de cultura organizacional da Crescimentum, “cultura é o conjunto de comportamentos encorajados ou permitidos pelos valores e crenças dos líderes do passado e do presente das organizações”.

Trocando em miúdos, a cultura está diretamente ligada à forma como a liderança é exercida dentro das corporações.

“O papel mais desafiador é o da liderança, que não foi preparada para exercer esse papel à distância. Ele tem o desafio de vestir o chapéu de gestor e o de líder. O gestor é o que vai cobrar resultados. O líder vai pensar no desenvolvimento do funcionário. Precisa ter a sensibilidade de aumentar a produtividade sem esquecer de alavancar os próximos passos da carreira do colaborador”, afirma Lucas Papa, gerente da consultoria Michael Page.

Por que a distância pode dificultar esse papel de líder? Porque uma coisa é trabalhar do lado do colega. Se achar que algo não está bem, é só ir até a mesa dele, marcar um café. É uma dinâmica diferente para o trabalho remoto. “A sensibilidade que precisa ter é diferente, pois a pessoa não está lá do lado dele”, diz Papa.

Mas a distância prejudica a cultura? Depende de vários fatores. Veja o que os especialistas dizem:

Paulo Sardinha, presidente da ABRH (Associação Brasileira de Recursos Humanos) diz que distância pode afetar, pois o home office é uma atividade muito individual. “A cultura é o resultado de uma atividade integrada e coletiva. Quando estamos distantes, nos atentamos mais para nossas necessidades individuais. A cultura é resultado da interação coletiva.”

Por outro lado, ele diz que essa interação social pode acontecer no ambiente virtual. “As reuniões virtuais estão aí cumprindo esse papel.”

Para Antonio Salvador, líder de negócios de carreira na Mercer Brasil, a distância física não é empecilho para as relações de trabalho. “Tem gente que está tendo mais contato hoje do que antes. Pelas videoconferências, as pessoas estão entrando na casa das outras, conhecendo duas famílias. Tudo depende do tipo de empresa”, disse.

Segundo Salvador, a interação pode ser presencial e ser péssima. “Não necessariamente o contato presencial vai perpetuar ou não a cultura da empresa.”

Marback, da Crescimentum, diz que os líderes têm papel mais importante que a questão de ser home office ou trabalho presencial. “O comportamento dos líderes é que perpetua a cultura corporativa”, afirma. “Se olhar em camadas, no centro de tudo, está a influência dos líderes no comportamento das pessoas.”

Papa lembra que o RH também tem um papel importante na construção da cultura, ainda mais em tempos de trabalho remoto. “O RH pode proporcionar encontros online, como happy hour, marcar encontros semanais com as lideranças para falar sobre temas da empresa ou manter de forma remota comemorações que eram presenciais, como o aniversário dos funcionários.”

O que é mais importante que a proximidade então?

O mais importante, segundo Salvador, é que as os funcionários se sintam respeitados dentro da empresa. “Não adianta mandar kit de aniversário para casa dele se o colaborador tem uma sensação e injustiça, não recebe feedback. Não pode se esquecer do básico da relação humana no trabalho, que é uma comunicação clara e o mais honesta possível. As pessoas precisam estar em um ambiente em que elas possam ser o que quiserem, sejam elas homens, mulheres, LGBTQ+. Isso para mim perpetua a cultura.”

Esse também é o entendimento de Sardinha, da ABRH. “A cultura é mais fortalecida em empresas que conseguem respeitar os indivíduos de forma individualizada.”

“Vejo as empresas se fazendo perguntas erradas sobre como engajar os funcionários. É preciso permitir que o empregado tenha um sentimento de pertencimento. Que ele olhe para a empresa e veja valores com os quais se identifica na maneira como ela negocia, olha para a diversidade e sustentabilidade. Aí ele vai querer pertencer à empresa e o engajamento acontece de forma mais natural”, diz Sardinha.

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