Feitas sob medida para manter a engrenagem rodando assim que as pessoas se viram forçadas a trabalhar em home office, as videoconferências passaram a integrar a rotina de centenas de milhões de profissionais no mundo todo — e costumam ser associadas à eficiência e alta produtividade.

O problema, como de praxe, está no exagero. Ou seja, realizar reuniões virtuais consecutivas, sem parada nem critério, um verdadeiro clássico da pandemia.

“A prática de emendar uma reunião na outra e, portanto, pular imediatamente de um assunto para o próximo, sem nenhum tipo de reset cerebral, é um dos fatores relacionados à sobrecarga cognitiva que, quando mantida em patamares altos, tende a se transformar em estresse tóxico”, afirma Li Li Min, professor titular do Departamento de Neurologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Isso faz com que passemos a usar nossa energia para manter em alerta o circuito de sobrevivência, preparando o corpo para uma situação nova ou uma eventual ameaça, antes representada pelo leão na savana, hoje pelo cumprimento do dever.”

Entre os sinais físicos relacionados a essa condição estão sudorese, tontura e taquicardia. Sem falar nas dores de cabeça e no corpo, nos distúrbios do sono, na falta de concentração e irritabilidade, o que a médio e longo prazos podem levar ao esgotamento físico e mental. Para evitar chegar a esse ponto, os especialistas recomendam uma alternativa tão simples quanto eficaz: fazer pausas estratégicas entre as chamadas de vídeo.

Uma recente pesquisa da Microsoft sobre ondas cerebrais mostra que prever descansos, mesmo que curtos, ajuda a evitar a exaustão no final do dia, bem como aumentar os níveis atencionais e de engajamento dos profissionais. Entre as dicas para aproveitar ao máximo os momentos de intervalo e garantir uma transição virtual mais harmônica estão:

  • encarar as pausas longe do computador como uma parte essencial da sua jornada de trabalho;
  • encontrar atividades que acalmem a mente, tais como esticar as pernas, olhar para o céu azul pela janela, tomar um café, anotar algo em papel etc.;
  • evitar e-mail ou celular durante o descanso;
  • considerar modos alternativos de comunicação além das chamadas por vídeo;
  • tornar as reuniões mais objetivas, ágeis, intencionais.

Momento “eureca”

As videochamadas em série sem dúvida encontraram um ambiente fértil na pandemia. Empresas mais conscientes e preocupadas com o bem-estar e a saúde mental de seus funcionários, no entanto, vêm oficialmente desestimulando o excesso de tal prática. É o caso de Itaú, Citi, Algar e Merz Aesthetics, entre outras, que sugerem um espaçamento mínimo de 10 minutos entre as reuniões de trabalho, não marcá-las em horários quebrados — tampouco antes ou após o expediente — e bloquear na agenda os horários de almoço. Há ainda as que determinam um ou mais dias da semana exclusivamente para a realização de tarefas diversas, extra-vídeos.

“Tais iniciativas são importantes, sobretudo ao levarmos em consideração a dificuldade de um cérebro sobrecarregado em acessar redes neurais voltadas para funções executivas e criativas”, explica o professor Min. “Em outras palavras, é preciso uma mente plena e relaxada para que possamos focar e nos aprofundar em algo, armazenar e processar informações, tomar decisões assertivas e ter boas ideias. Não é à toa que o ‘momento eureca’ costuma acontecer em ocasiões descontraídas, muitas vezes fora do ambiente de trabalho.”

Regra ou exceção?

Apesar das ações afirmativas de algumas empresas relacionadas a esse tema em particular, há quem mesmo assim entre no embalo frenético das chamadas por vídeo sem se dar conta de suas múltiplas desvantagens. Ou, então, em função de alguma circunstância específica. Como por exemplo, ao ingressar em uma nova companhia em meio à crise do Covid-19, sem conhecer pessoalmente as equipes e tendo de se adaptar, à distância, à sua cultura e dinâmica.

Foi o que aconteceu com Ana Paula Vitelli, diretora de desenvolvimento de negócios da ao³, empresa de tecnologia voltada para empreendedores e escritórios de contabilidade. No afã de se conectar com o time e fazer uma rápida imersão nos processos, ao assumir o novo cargo, em maio deste ano, a executiva se viu presa a um turbilhão de reuniões sequenciais — seguindo, assim, na contramão das diretrizes da companhia, que desencoraja a sobrecarga digital no dia a dia de trabalho.

Os resultados de sair agendando e aceitando praticamente todos os encontros online, sem reserva, por meses a fio? Dores constantes no corpo, sono atribulado, alimentação desregrada e sem horário definido, ansiedade e exaustão ao final do dia.

“Ao mesmo tempo que as plataformas de vídeo são um espaço incrível para interação, o perigo de ser moído por elas é real. O bom é que logo me dei conta de quão improdutiva e sem sentido era aquela rotina intensa de reuniões e comecei a administrá-las melhor, me autorregrando”, diz Ana Paula, que hoje se sente bem mais produtiva, fazendo o trabalho funcionar em todas as frentes, o que prevê absorver e consolidar informações, ler relatórios e e-mails com calma e montar planos estratégicos, além de ter mais espaço para a empatia e o envolvimento com o time. “Afinal, é preciso liderar pelo exemplo, mostrando, entre outras coisas, a importância dos cuidados para a manutenção do equilíbrio e o bem-estar emocional. Inclusive no que se refere à toada incessante de videoconferências que, conforme aprendi na prática, devem ser a exceção, e nunca a regra.”

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