O jornalista catarinense Marcos Piangers é uma das principais referências brasileiras em paternidade ativa. Pai de Anita e Aurora, ele é autor de vários livros que narram as delícias e dificuldades da paternidade. Seu best seller O Papai é Pop foi adaptado para os cinemas – com Paolla Oliveira e Lázaro Ramos.

Em entrevista ao 6 Minutos, Piangers defende a ampliação do período de licença-paternidade, que hoje é de cinco dias no Brasil. Ele também diz que os homens deveriam aderir mais ao pré-natal masculino. Apesar de existir, a taxa de adesão a esse pré-natal é baixíssima.

Leia entrevista abaixo:

Você conseguiu ter uma licença-paternidade ampliada?

Eu tive um chefe muito compreensivo na época, por isso tive todo o tempo que precisei. Na época, precisei mudar de cidade porque minha esposa quis estar perto da família dela. Muitos homens não percebem a importância dos primeiros dias para entender as engrenagens que movem a chegada da criança à família. Se eu puder voltar alguns passos, acho que os homes deveriam fazer o pré-natal masculino. Tem tanto município oferecendo, mas a taxa de adesão é inacreditável [de baixa].

Tenho um amigo de Santa Catarina que em julho, mais da metade do ano, foi o primeiro homem da cidade a se inscrever no pré-natal masculino.

Por que é importante ampliar a licença-paternidade?

Para todo mundo entender que o pai também é importante. Se você tem só cinco dias, a mensagem que passa é que o pai não é importante. Ele fica cinco dias fora, depois volta a trabalhar para pagar as contas. Só que hoje, 49% dos lares são sustentados por mulheres. Essa licença de cinco dias mantém a visão de que o homem é quem paga as contas. E aí a mulher fica sozinha em casa e desempenhando os dois papéis: cuidadora e provedora. Como um sinal à sociedade, ela [licença] deveria ser estendida.

Qual seria a licença ideal?

Vou ser um pouco otimista demais, talvez revolucionário. Acredito na licença parental. O casal tem um filho e a licença para os dois é igual. De preferência, com tamanho adequado para que os dois possam participar dos primeiros meses de vida. Tem empresa que dá 20 dias [de licença-paternidade] e a gente acha que é um privilégio. Na Suécia, a licença é parental e dura 480 dias. Se a gente comparar, vai ver que 20 dias não é privilégio, é uma migalha.

É ótimo tirar uma licença de 20 dias. Mas depois o homem volta para o trabalho e perde muita coisa. E por conta de perder, se sente deslocado em casa, na família. Ele não sabe onde está o lencinho, qual fralda é melhor, qual a papinha preferida do filho. São detalhes que vão desconectando o homem do filho. Ele passa a dizer que quem entende disso é a mulher, que ela é que sabe prender o carrinho no cinto e por aí vai. Ele vai ficando alheio e colocando todo o peso nas costas da mulher.

Os homens não usariam essa licença ampliada como uma espécie de férias?

Já discuti com especialistas se seria temerário adotar essa medida por conta da cultura masculina de desapego à família. Pode ser que num primeiro momento essa licença ampliada possa ser entendida como uma folga. Ainda tem gente que acha que licença-maternidade e uma folga, imagina a paternidade. São pessoas que não entendem que os primeiros seis meses são os mais trabalhosos da vida da mulher.

E também temos o problema do abandono parental. De homens que engravidam várias mulheres, às vezes ao mesmo tempo, e não participam da criação de nenhum dos filhos. Seria injusto dar licença para homens que não têm realmente um compromisso com família.

O primeiro passo para que isso não aconteça é fortalecer a comunicação, mostrar a importância da participação do pai nas famílias e da divisão equânime de tarefas dentro de casa.

Mudou alguma coisa para você participar mais da criação das suas filhas?

Eu achava que era participativo. Quanto mais participei, mais eu vi que não fazia quase nada. Quem não participa, não enxerga tudo o que precisa ser feito. Quanto eu mais participava, mais eu vi o quanto minha mãe fez por mim e quanto minha esposa fez enquanto eu trabalhava fora.

Isso fez toda diferença para mim. Na primeira gestação, descobri a paternidade. Na segunda, descobri que tinha muito para evoluir. Minhas filhas têm 16 e 9 anos. Quando olho para elas, penso em como teria feito diferença um pré-natal masculino, um acompanhamento da gestação e uma licença-paternidade substancial, longa e tranquila.

A PwC tem uma experiência muito legal. Lá, as mulheres têm 6 meses e os homens, 3 meses. Eles podem usar 1,5 mês no nascimento e o período restante quando a mulher retorna ao trabalho. Esse sistema é legal porque a mulher volta mais tranquila para o trabalho, pois sabe que o pai está cuidando do filho. É bom também porque o pai fica 1,5 mês sozinho com o filho. É um desenho que respeita o período de amamentação e também coloca o pai para se virar sozinho. Ter esse período sozinho dá uma nova perspectiva ao pai.

Sei de casos de empresas de Dublin que oferecem uma licença maior aos pais. E isso ajuda a reter funcionários, mesmo em áreas disputadas como a tecnologia.

Qual a mensagem mais importante que você quer passar aos pais?

O mais importante é que pai não ajuda. O pai tem que se enxergar como um jogador do time 100% do tempo. Ele acha que faz 100% do trabalho e a mulher 50%. Mas quando começa a jogar, os outros jogadores percebem que ele só faz 50%. Ele tem que jogar 100%. Tem que fazer tudo e pensar que a mulher é que está ajudando. Não seja um pai pela metade, seja um pai por inteiro.

Crédito: Giselle Sauer

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