Em 2019, as mulheres ocupavam apenas 20% dos cargos do setor de tecnologia, segundo o IBGE. De lá para cá, esse percentual aumentou um pouco, mas ainda falta muito para que a distribuição de postos e salários no setor seja mais igual entre homens e mulheres.

Por isso, muitas empresas focam seus programas de capacitação em programação no público feminino – caso do Luiza Code, do Magazine Luiza. “Aqui no Magalu, optamos por focar o programa de formação nas mulheres. Porque tem tudo a ver com o Magalu, que tem o nome e alma feminina. As pesquisas mostram que as mulheres ocupam só 25% dos cargos de tecnologia. Queremos ter mais que 25% no Magalu”, afirma Patricia Pugas, diretora de gestão de pessoas da rede varejista.

Mesmo em minoria, as mulheres vêm aproveitando as oportunidades que surgem para atuar em uma área em que há déficit de mão-de-obra.

O 6 Minutos conversou com três dessas mulheres e conta abaixo um pouco de suas histórias.

Dynnah Max Silva, desenvolvedora do Luiza Labs, área de inovação do Magazine Luiza

No ensino médio, Dynnah fez eletrotécnica. Mas foi só na faculdade que percebeu que as mulheres eram minoria na área. Ela foi a única da sua turma a se formar em Sistemas da Internet, em 2020.

“Quando comecei o curso, eram duas mulheres em uma turma de 50 pessoas. Depois, foi afunilando e só havia eu de mulher me formando. Nas turmas dos outros anos, também eram poucas mulheres.”

Para Dynnah, estar em um curso só com mulheres deixa o ambiente mais confortável e acolhedor. “Quando tem outros homens, a gente fica mais acanhada para fazer perguntas. Na graduação, tinha gente com uma conversa de alto nível, a gente ficava com medo de falar. Hoje, eu sei que não era legal ir para casa com dúvida.”

Já no curso para mulheres o clima era outro. “Os professores diziam que não existe dúvida simples. E a gente se sentia confortável para perguntar qualquer coisa.”

Além disso, no Luiza Code havia mulheres com todo tipo de formação, algumas sem nenhum conhecimento de tecnologia. “O Luiza Code capacitou 80 mulheres, dando a oportunidade de primeiro emprego ou de migração de carreira para todas elas. O curso permitiu entender como trabalha, como funciona, como é a dinâmica.”

Para a Dynnah, uma das vantagens da carreira é poder ser contratada ainda estudando ou recém-formada. A demanda por essa mão-de-obra é tão grande que ela já foi procurada por outra empresa de João Pessoa, onde mora.

Mas ela está feliz no Luiza Labs, onde pode trabalhar remotamente. “Sou de João Pessoa e embora Campina Grande tenha um centro de tecnologia, a maioria das vagas está no eixo Rio-São Paulo. Mas a pandemia acelerou isso de trabalhar remoto.”

Dynnah, do Luiza Labs

Aline Marjorie Farinha, de jornalista a desenvolvedora back-end na Pagar.me

Formada em jornalismo pela PUC de Campinas, Aline disse que sempre se interessou por tecnologia. “Quando entrei na faculdade, logo percebi que talvez não fosse muito aquilo [jornalismo] que eu queria. Acabei arrumando emprego em uma startup, mas já pensando em migrar de carreira. Na startup, trabalhava na comunicação, mas teria mais contato com os programadores”, diz ela.

Com um namorado desenvolvedor, Aline já tinha muitos amigos na área de TI. Foi aí que ela ficou sabendo de um bootcamp, que oferecia vagas para mulheres que se formaram na escola pública ou com bolsa em particulares. “Foi uma seleção bem concorrida: havia 2.000 interessados para 60 vagas. Me inscrevi e acabou dando certo.”

Ela disse que o bootcamp foi bem puxado. “Tinha aulas de segunda a sexta, das 12h às 18h, por seis meses. Foi um bootcamp focado em apresentar a carreira de programação e um pouco de front-end para mulheres.”

E como surgiu o emprego? No final do bootcamp, houve um evento que reuniu as aulas e empresas interessadas em contratá-las. “A Pagar.me participou desse evento, fiz a entrevista e fui contrada em agosto de 2019.”

Ela pagou pelo curso? “Ele é pago, mas o pagamento só começa a ser feito se a pessoa arrumar emprego com um salário bom. Se não arrumar, não paga”, conta Aline.

A desenvolvedora diz que está aprendendo muito dentro da empresa. “Eu tive uma formação de front-end e fio contratada para o bak-end. Entrei meio verde, mas tive muito apoio do meu time. Tenho um líder paciente e podemos trabalhar em duplas, o que ajuda bastante. Continuo estudante bastante e acho que já evoluí nesse tempo.”

É muito difícil sair de humanas e virar dev? Ela compara o aprendizado da programação ao de outro idioma. “A programação é uma linguagem, é como aprender a escrever em um novo idioma. Tem regra gramatical, mas é baseada na lógica.”

Por outro lado, ela vê vantagens em sua bagagem de humanas. “Acho que a parte de comunicação me ajuda bastante.”

Aline migrou do jornalismo para a programação
Crédito: Arquivo Pessoal

Bianca Guzenski:  de dentista a engenheira de software da Stone

Bianca se formou em Odontologia, mas diz que nunca foi muito apaixonada pela profissão. Mas ela tinha muitos amigos em TI, pois seu marido é desenvolvedor. “Eu via as possibilidades que a carreira oferecia, como trabalhar em home office e trabalhar em grupo. Migrei de carreira por influência das pessoas que conhecia.”

Ela foi uma das selecionadas pelo Programa de Formação da Stone, que ensina o Elixir, linguagem desenvolvida pelo brasileiro José Valim, e que é uma das principais tecnologias usadas pela empresa. “Fiz um teste e passei. Era um teste simples, mas precisava conhecer um pouco de programação.”

Nesse mês de formação, Bianca disse que aprendeu a entender a linguagem, reconhecer a estrutura do código e saber se o programa está funcionando. “Eu conhecia o básico de outra linguagem, mas nunca tinha tido contato com o Elixir.”

É muito difícil aprender outra linguagem? Bianca afirma que não. “Não é algo de outro mundo. O difícil é que no dia a dia são milhares de linhas de código e cada parte é desenvolvida po uma pessoa diferente. O difícil, às vezes, é entender o que a outra pessoa quis dizer.”

Para a desenvolvedora, um dos benefícios de ter passado por um programa como esse é que todos já fizeram a formação contratados. “Ninguém entrou 100% leigo, mas muita gente tinha só o básico do básico de programação.”

O ambiente colaborativo de trabalho é uma das características que atraiu Bianca para a tecnologia. Outro motivo são as perspectivas de carreira. “Gosto de trabalhar em time e é uma carreira de futuro, tanto que falta profissional no mercado.”

Bianca saiu da Odontologia e foi para a Tecnologia

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