Por conta do isolamento social e da paralisação das atividades econômicas decorrentes da pandemia, de uma hora para outra o home office passou de modalidade reservada a poucos para se tornar a regra geral. Com isso, as reuniões por vídeo, antes feitas ocasionalmente, se tornaram parte da rotina das pessoas, que de lá para cá vêm construindo relações de trabalho, tomando decisões e apresentando projetos através de uma tela de computador.

Há quem tenha tirado o desafio de letra, ou custado um pouco para se adaptar à inevitável realidade. Outros, no entanto, mesmo um ano e meio após a chegada da covid-19 ao país, persistem em não aderir às demandas e expectativas do novo universo remoto.

É o caso, por exemplo, daqueles que permanecem ocultos atrás de um retângulo preto, ou de uma foto estática, durante os encontros online. Ou seja, optam por manter a webcam desativada na maioria das vezes, se não em todas – o que pressupõe riscos reais na busca por crescimento profissional.

Fazer-se presente e, sobretudo, ser visto, nas videoconferências é altamente recomendável aos profissionais que desejam imprimir sua marca, ser reconhecidos e pleitear novas posições na empresa. Afinal, a projeção de carreira acontece mediante àquilo que a pessoa entrega e como consegue se conectar, se relacionar e ‘se vender’, o que fica mais difícil quando entra e sai reunião e sua imagem não aparece”, diz Ligia Pícoli Rodrigues Lucas, especialista em carreira e recolocação na Fibra RH.

“Acontece que deixar a câmera desligada de forma recorrente dá margem para os outros presumirem que você não está preparado, atento nem comprometido com aquela ocasião específica, sendo isso verdade ou não.”

Exceções à regra

Por essas e outras, a orientação dos especialistas é conservar a câmera ativada ao longo de todas as chamadas de vídeo – por mais arrastadas, cansativas ou entediantes que algumas (ou muitas) delas sejam. A exceção fica por conta de problemas pontuais e imprevistos, como situações caseiras inapropriadas ao contexto corporativo, o que implica sair temporariamente de cena.

Nesse caso, o ideal é explicar ao anfitrião o motivo da “ausência visual” logo em seguida do ocorrido, de preferência no privado. Por outro lado, se a empresa e as lideranças vêm pesando a mão na quantidade de videoconferências (e, em função disso, você anda exausto e estressado com sua onipresente imagem na tela), o ideal é negociar pausas estratégicas entre uma e outra. Ou, então, propor outros formatos de reunião. Por telefone, digamos.

Configurar a ferramenta de videoconferência para que não seja possível enxergar a si próprio (sendo que os outros continuam a vê-lo) ou minimizar a janela em que você aparece também são boas alternativas para reduzir aquele desconforto de encarar-se continuamente no monitor, em espelho. “As chamadas por vídeo fazem com que muitas pessoas fiquem observando, monitorando e fiscalizando a própria imagem, promovendo esforços constantes para ajustá-la, momento a momento”, diz o psicanalista Paulo Cabral Silva. “Isso acaba criando uma alta demanda energética, tida como uma das causas da fadiga relatada pelo uso de aplicativos de vídeo chamada.”

Quem são eles?

Segundo Lígia, os menos afeitos à exposição normalmente apresentam um perfil mais reservado, discreto e introspectivo, o que a priori extrapola o online para o off-line e é bem comum em profissionais de TI e telemarketing, por exemplo – que em geral gostam de atuar de forma mais independente. Indivíduos com sólida formação matemática e alto grau de raciocínio lógico e abstrato, requisitos facilmente encontrados em engenheiros e financistas, tampouco costumam ter habilidades interpessoais e de comunicação afloradas.

No mercado de trabalho remoto extremamente competitivo de hoje, porém, é imprescindível um esforço extra nesse sentido, o que implica, entre outras coisas, adesão à “visibilidade virtual”.

“Antes da pandemia existia um nível maior de condescendência em relação a pessoas com perfis mais fechados, o que não é errado nem inferior, pois as empresas precisam de todos os tipos de profissionais e todos podem alcançar, a seu modo, o sucesso”, diz a especialista em carreira. “Mas é preciso entender que as modalidades remotas e híbridas vieram para ficar e a ausência de uma comunicação efetiva pode pôr em risco o sucesso de qualquer projeto ou negócio.”

Bons modos

Para Claudia Matarazzo, especialista em etiqueta empresarial, comportamento e comunicação a distância, permanecer incógnito nas reuniões por vídeo vai na contramão das boas maneiras no ambiente de trabalho, a serem seguidas em favor da produtividade e do convívio harmonioso entre colegas, superiores, subordinados e clientes. Sem falar, é claro, daquele empurrãozinho na carreira.

“Além de uma falta de consideração com os anfitriões e o time, fechar a câmera impede as outras pessoas de ‘lerem’ suas expressões faciais e perceberem as reações ao que está sendo falado e discutido, o que tende a prejudicar a interação no geral.

Por isso é super importante o foco e o olho no olho no decorrer dos encontros virtuais”, afirma a consultora, que cita abaixo algumas recomendações importantes para garantir uma boa “vídeo-imagem” pessoal:

• apenas aparecer na reunião, fazendo cara de quem a está acompanhando, não basta. É preciso demonstrar envolvimento e participação:

• nada, portanto, de se mostrar inquieto, estabanado e disperso, olhando para o celular ou para os lados o tempo todo, responder e-mails ou se envolver em atividades paralelas;

• estar atuando em home office não isenta ninguém de manter a pele limpa e os cabelos penteados e arrumados durante as videoconferências;

• cara amassada, de sono, pega mal (atenção!);

• maquiagem discreta para as mulheres, barba sempre bem-feita ou cortada para os homens;

• esteja sempre alinhado, com as roupas limpas, bem passadas, discretas e condizentes com o que se espera de você como profissional;

• dê preferência a peças que valorizem seus olhos e seu rosto;

• evite acessórios muito chamativos;

• apesar de somente a parte superior do seu corpo ficar aparente na tela, trate de vestir-se por inteiro, partindo do princípio que às vezes é preciso se levantar da cadeira por alguma razão;

• beber eventualmente um copo d’água ou suco, uma xícara de chá ou uma caneca de café ao longo da chamada por vídeo, o.k. Comer, por sua vez, já fica mais complicado. Falar e mastigar, afinal de contas, são coisas que absolutamente não combinam. A mesma lógica vale para a “dupla” reunião por vídeo & câmera em off. Não orna.

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