Iniciativas para reduzir a desigualdade racial no mundo corporativo vêm crescendo ano a ano e já geram reflexos na empregabilidade dos estudantes negros no Brasil. Isso é o que mostra um levantamento realizado pela empresa de recrutamento Companhia de Estágios. De acordo com a pesquisa, as contratações de estagiários pretos e pardos triplicaram no início de 2021.

O que mostram os dados? De acordo com a Cia. de Estágios, nos primeiros três meses do ano passado, foram contratados 250 estagiários negros. Em 2021, no mesmo período, este número saltou para 743, marcando um aumento de 197%.

“Ainda que a pandemia tenha desacelerado a média de efetivação de estagiários de modo geral, os resultados do primeiro trimestre de 2021 são satisfatórios quando olhamos para a taxa de contratação de jovens negros e mostram que o indicador aumenta ano a ano”, explica Tiago Mavichian, CEO e fundador da Companhia de Estágios.

Trajetória – Entre 2018 e 2019, o aumento na contratação de universitários negros foi de 96%. Quando o comparativo é feito com base no período de 2018 a 2020, o índice sobe para 150%.

Uma das explicações para esse cenário é o crescimento de programas de estágio com metas de diversidade racial.

“Antes, as empresas se preocupavam somente em incluir pessoas com alguma deficiência nos programas de seleção. A preocupação hoje é atrair não só PCDs, mas negros, mulheres, pessoas mais velhas e o público LGBTQIA+. Há pouco tempo, esses temas nem entravam em pauta”, afirma Mavichian.

Qual é o perfil desses estagiários? O mapeamento aponta que, hoje, a maioria dos estagiários pretos e pardos são mulheres (55%), moram no Sudeste (85%) e têm idade média de 23 anos — a mesma média etária dos estagiários brancos.

Distribuição regional – Ao olharmos para as diferentes regiões do Brasil, depois do Sudeste, as que mais possuem estagiários pretos e pardos são Nordeste (6%), Norte (4%), Sul (3%) e Centro-Oeste (2%).

Ensino – Em 2020, 38% dos estagiários negros eram oriundos de escola pública, número 111% maior do que em 2019, quando 18% estudavam em instituições municipais, estaduais ou federais.

Áreas de atuação – O curso mais comum, tanto entre estagiários pretos quanto pardos contratados em 2020, é administração. Entre os estagiários autodeclarados pretos, destaca-se o curso de direito. Já entre os pardos, predominam as engenharias: civil, de produção, mecânica e química.

O que vem mudando nas empresas? Muitas companhias têm repensado pré-requisitos e feito uma revisão de ideias pré-concebidas para eliminar vieses e distorções.

Experiência – O levantamento da Companhia de Estágios revela, por exemplo, que as organizações estão contratando mais jovens sem experiência prévia. Em 2018, apenas 6% dos negros começavam a estagiar sem ter experiência no currículo. Em 2020, este número já era de 19% — um aumento de 217% em três anos.

“Em vez de exigir inglês, Excel e faculdades renomadas no currículo, por exemplo, deve-se focar nas competências comportamentais, avaliando a história de vida, o alinhamento com a cultura da empresa, o comprometimento e a disposição para aprender — aspectos importantíssimos para o sucesso de um profissional e que não se ensinam em cursos”, ressalta Mavichian.

Por que rever os pré-requisitos? Isso é necessário pois algumas desigualdades, como nível de inglês e Excel, ainda persistem.

Inglês e Excel – O número de negros aprovados com inglês avançado é menor do que o de brancos: 33% dos pretos aprovados afirmam ter inglês avançado; contra 54% dos brancos. O mesmo acontece com Excel: entre os contratados pretos, 17% tinham conhecimento avançado da ferramenta; ante 23% dos brancos.

Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que, no segundo trimestre de 2020, o desemprego entre negros foi 71% maior que entre brancos, o que evidencia a necessidade de mudanças.

“Ter um quadro de funcionários que reflita efetivamente a sociedade brasileira deve se tornar meta para todas as empresas, com ações de curto, médio e longo prazo para aumentar o número de negros em todos os níveis hierárquicos”, diz Mavichian.

Como foi feita a pesquisa? Os dados do levantamento sobre estagiários negros no Brasil da Companhia de Estágios foram coletados a partir de uma base de 3.347 estudantes negros, contratados entre 2018 a 2020. A pesquisa usa a mesma classificação de “cor ou raça” do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em que o termo negros se refere à soma das populações preta e parda.

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