Se dependesse de Scott Fitzgerald, um dos maiores escritores americanos do século XX, o ponto de exclamação certamente seria ‘cancelado’. “Usá-lo é como rir das próprias piadas”, dizia ele. Já para Elmore Leonard, famoso autor de romances e contos que se transformaram em filmes de sucesso, como Pulp Fiction, o ideal seria utilizar esse tipo de pontuação “uma vez a cada 100 mil palavras”, o equivalente a “um livro e meio”.

Parece exagero? Nem tanto, visto que Ernest Hemingway usou o sinal gráfico em uma única interjeição (“Agora!”) ao longo das 127 páginas de seu aclamado livro O Velho e o Mar. Outro expoente da literatura, o brasileiro Graciliano Ramos se perguntava: “para que danado serve uma exclamação? Meu Cristo! Há gente que vive exclamando. Não só uma. Mas várias inflexões de uma só vez. Quanta admiração!!!”

Pois é. Principalmente a partir dos anos 1920, esse sinal começou a ser um tanto mal visto graças aos “excessos admirativos” dos jornais sensacionalistas e do mercado publicitário (com suas campanhas hard sell), sem falar nos açucarados romances femininos. De lá para cá, as exclamações passaram a ser evitadas, rejeitadas e, não raro, sumariamente ignoradas. Para se ter noção, até os anos 1970 poucas máquinas de escrever manuais eram equipadas com teclas de pontos de exclamação.

Tudo isso, no entanto, ficou para trás. Sobretudo por conta da Internet e das suas múltiplas plataformas de mídias sociais, esse multifacetado sinal de pontuação – capaz de dar ênfase, marcar a entonação e inserir emoção, entusiasmo e surpresa às conversas virtuais, entre outros tantos sentimentos – está de volta. E com força total.

“A democratização do acesso à produção de conteúdo vem evidenciando um fenômeno social e histórico: o fato de as pessoas estarem progressivamente transportando os recursos da fala para a escrita”, explica Vívian Rio Stella, doutora em linguística e idealizadora da VRS Academy, empresa de Comunicação, Oratória, Liderança e Cultura de Aprendizagem.

Personalidade e bom humor

No caso dos pontos de exclamação – muitos hão de concordar –, a impressão é que todo mundo precisa dar intensidade ao que diz por meio de textos cada vez mais curtos. “Até pouco tempo atrás considerado um jeito ruim de encerrar uma frase, o uso desse elemento de linguagem parece ter se tornado um limite obrigatório”, afirma o jornalista e escritor inglês Stuart Jeffries em artigo publicado no jornal The Guardian. “Antes era suficiente colocar um sinal de ‘volto em cinco minutos’ na porta. Hoje, sem o florescer de uma exclamação a mensagem parece perder a vitalidade.”

Vitalidade essa também representada por novas ferramentas de comunicação trazidas pela Internet, como smileys, emoticons, emojis, memes e gifs, que servem igualmente para transmitir emoções, além de adicionar personalidade e bom humor às conversas.

“Esses são signos que, embora não correspondam ao uso padrão de linguagem, chegaram para complementar a intenção das mensagens escritas, de forma bem literal e específica”, diz Marcelo Módolo, professor-doutor de Filologia e Língua Portuguesa no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Exclamação S/A

Os sinais exclamativos sem dúvida encontraram abrigo na “jovem” internet, um ambiente livre, informal e predominantemente emotivo. Mas e quanto a sua utilização no contexto corporativo, mais estruturado, cheio de ritos e códigos? Em que medida empregá-los nos diversos tipos de veículos e plataformas profissionais, como e-mails, mensagens de Whatsapp, Teams e por aí afora? Como agir, leia-se, quando a comunicação deixa de ser individual e passa a acontecer em nome da empresa?

Para os especialistas, não existem respostas prontas para essas questões, tampouco normas relacionadas ao tema. “A escrita espelha pensamentos e opiniões, isto é, expressa muito de quem você é. Tolher isso seria ir contra as pessoas, censurá-las”, afirma Módolo. “De todo modo, é fundamental combinar e ajustar seu estilo à cultura organizacional da companhia onde atua, que pode operar de maneira mais informal, ou nem tanto.”

Em um mundo cada vez mais social e interativo, porém, não dá para generalizar, pressupondo que agências de publicidade são locais invariavelmente despojados e bancos, sérios e sisudos. Com o recente surgimento das fintechs, por exemplo, a linguagem utilizada pelas instituições financeiras vem se tornando mais condizente às estratégias de identificação e proximidade com clientes, parceiros e demais públicos de interesse. Diante disso, os pontos de exclamação podem – por que não?  – cair bem em diversos cenários e situações, ajudando a imprimir vivacidade às mensagens e leveza aos relacionamentos profissionais.

Vantagens versus excessos

Autores do livro Enviar: O Guia Essencial de como Usar E-mail com Inteligência e Elegância, David Shipley e Will Schwalbe se auto proclamam defensores do tal traço vertical com um ponto embaixo, capaz de fazer toda a diferença na comunicação. Para entender como isso se dá na prática, basta imaginar uma afirmação simples, como ‘Nos vemos na conferência’, que, finalizada com uma exclamação (‘Nos vemos na conferência!’), permite a seu interlocutor saber o quão realmente empolgado você está em relação ao evento. O mesmo vale para um enfático e amigável ‘bom dia!’ ou ‘obrigado!’, quando, é claro, utilizados com critério e dentro de um contexto próprio. Eis porque em momentos de confraternização ou parabenização de equipe os sinais exclamativos costumam funcionar bem. Para exprimir urgência na entrega de um projeto, idem.

Ainda no âmbito empresarial, o problema maior, destacam os especialistas, diz respeito ao foguetório carnavalesco de exclamações e suas repetições (duas, três, inúmeras vezes ao final de cada frase), algo bastante comum nos bate papos on-line, mas bem pouco recomendável na esfera corporativa. Para ilustrar o espalhafato gramatical, Vívian conta que, durante os cursos de linguagem que ministra nas empresas, costuma mostrar um e-mail real (e anônimo) no qual todas as sentenças, sem exceção, terminam com um ponto exclamativo. Do ‘olá!’ ao ‘aguardo!’. “A impressão é que a pessoa escreveu no automático, sem reler o texto nem atentar que toda a pontuação tem a ver com uma necessidade, um sentido e um efeito”, diz a linguista e consultora.

Teste de equilíbrio

Quanto à diferenciação por gênero, estudos mostram que as mulheres têm por hábito usar sinais exclamativos com maior frequência do que os homens. Faz todo o sentido, visto que elas são socialmente tidas como mais afetivas e, portanto, propensas a se comunicar de forma mais próxima e humanizada. Mas é importante que isso não dê margem a generalizações nem reforço de eventuais rótulos negativos ligados à comunicação feminina. O e-mail citado acima por Vívian, com exclamações de fio a pavio, por exemplo, foi originalmente assinado por um homem. O fato é que, independentemente de sexo, cor, raça, faixa etária – e da quantidade de pontos exclamativos que permeiam sua escrita no trabalho – qualquer profissional que almeja o sucesso tem como desafio diário equilibrar as três habilidades cruciais para uma comunicação eficaz. São elas: credibilidade, simpatia e autoridade.

Até a próxima!

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