De março do ano passado para cá, os desastrosos efeitos do Covid-19 reduziram a atividade econômica ao mínimo essencial, paralisaram segmentos inteiros e confinaram bilhões dentro de suas casas. Não é de se estranhar, portanto, que desde então cada vez mais gente venha se deparando com uma desconcertante pausa não apenas na vida pessoal, mas também na carreira.

De acordo com uma pesquisa realizada pela Mindsight com cerca de 5.800 profissionais, nada menos que 73% têm a percepção de avanço lento ou estagnação no trabalho. Para completar, outro estudo – feito globalmente pela Pearson com quase 7.000 pessoas em sete países (entre eles, o Brasil) – revela que seis em cada 10 entrevistados temem ter de mudar de carreira devido à pandemia.

“Em um cenário tão indefinido, muitos vêm se queixando da inércia na vida profissional, ao mesmo tempo que se mostram receosos de trocar o certo pelo novo”, diz Lúcia Santos, diretora de recursos humanos da Adecco, consultoria de gestão de pessoas. “Um dos grandes temores tem a ver, inclusive, com o risco de serem descartados nos três primeiros meses de experiência e se verem à deriva em meio à crise.”

Quais os principais sinais de alerta?

Entre os clássicos sinais de estagnação na carreira estão o fato de o profissional não receber aumento de salário por um intervalo superior a dois anos, ser preterido em consecutivas promoções, realizar as mesmas tarefas por longos períodos, não se envolver em projetos relevantes, deixar de ser consultado ou ter suas opiniões levadas em conta pelo time e pelos superiores, sentir-se inútil e desmotivado, e por aí afora.

Em épocas de recessão, a sensação de inércia produtiva costuma se intensificar, uma vez que muitos acabam aceitando cargos aquém de seu potencial e de suas competências simplesmente porque precisam trabalhar. Sem falar da nova modalidade de trabalho remoto, que tem submetido muitos a jornadas exaustivas, metódicas e sufocantes. “Os líderes devem atentar tanto para quem exerce atividades mais técnicas e burocráticas, que não preveem muito espaço para a inovação, quanto para os talentos subaproveitados, que tendem a se sentir estacionados em funções inferiores à sua capacidade”, explica Lúcia. “Em ambos os casos, é necessário achar meios criativos para desafiá-los e incentivá-los.”

Quais os fatores externos que levam à estagnação?

É certo que as pessoas têm mais chances de sair da estagnação quando as organizações se movimentam, abrem operações e vagas – o que atualmente não é o caso, com exceção de alguns (poucos) setores. Além da recessão econômica, outra situação ingrata é quando o profissional atua em companhias pequenas, nas quais não há como ser promovido, pois acima dele está apenas o dono do negócio. A mesma lógica vale para grandes empresas, sobretudo quando o cargo em questão é muito específico ou já se chegou ao topo da hierarquia dentro de uma determinada área de atuação. Ou seja, para crescer seria preciso se mover horizontalmente, por exemplo, o que pode não ser o seu foco.

Segundo Lúcia, da Adecco, outro motivo comum relacionado à parada na carreira se refere à falta de alinhamento com as políticas e diretrizes da companhia, o que pode levar qualquer profissional a um impasse. Foi o que aconteceu com o relações públicas Roger Spalding, ex-gerente de comunicação para a América Latina de uma multinacional do setor de gases industriais. Com praticamente 10 anos de empresa, ele começou como analista, foi promovido a coordenador e, em 2019, assumiu a gestão da área.

“Não existia uma posição de diretoria no Brasil, o que num futuro próximo certamente interromperia minha trajetória na organização. Mas a razão fundamental que me levou a pedir demissão foram as divergências entre a minha visão de futuro da área, menos operacional e mais estratégica, versus o posicionamento da empresa”, conta ele, que, depois de uma autoanálise e muita reflexão, passou a se tornar mais ativo no LinkedIn, fazer cursos, acionar sua rede de contatos, avaliar vagas e participar de diversos processos seletivos.

Um deles foi para o cargo de gerente de comunicação da unidade de saúde animal da Boehringer-Ingelheim, que Roger assumiu em dezembro do ano passado, em plena pandemia. Se ele hesitou em mudar de carreira diante de um contexto tão conturbado? “Eu não diria que é fácil abrir mão de uma companhia depois de tanto tempo, na qual você conhece o negócio, os processos, as pessoas, enfim. A meu ver, porém, com ou sem crise é indispensável ter coragem para olhar adiante e continuar dando passos para frente”, diz. “Para tanto, é preciso ponderar as oportunidades e os riscos, e tomar uma decisão consciente, não impulsiva. Afinal, não adianta sair de uma empresa e se deparar com outra com os mesmos entraves, o que vai apenas gerar mais frustração.”

E quanto aos fatores internos?

As variáveis da conjuntura econômica, o porte, o segmento e a cultura da organização onde o profissional trabalha – bem como a qualidade de seus relacionamentos com chefes, pares e colegas – sem dúvida podem atrapalhar o bom andamento de sua carreira, principalmente em fases difíceis. Em geral, no entanto, o bloqueio está em sua própria atitude. “Eu diria que 20% da estagnação se refere às circunstâncias externas e 80%, ao lado pessoal e comportamental”, afirma Lúcia, que cita a armadilha mental da acomodação como o grande obstáculo para virar o jogo.

Entre as atitudes sutis do dia a dia que contribuem para o comodismo estão: levar a vida sem objetivos claros, não se adaptar ao novo nem buscar atualizações (sinônimo de morte lenta) e entrar em um ciclo eterno de procrastinação e reclamações (atribuindo todos os problemas unicamente à empresa, ao mercado, ao coronavírus e afins). E, ainda, resistir às novas formas de atuar e à aceleração digital (impostas sobretudo pela pandemia), não demonstrar proatividade nem ambição, fechar-se em seu próprio mundo, não socializar (quem não é conhecido, leia-se, não é lembrado) etc.

Quais os riscos relacionados à carreira pausada?

Essa pausa indeterminada faz com que os profissionais fiquem mais suscetíveis não apenas à perda do emprego, é claro, mas também a sérios danos emocionais, tendo mais chances de sofrer de depressão, estresse e ansiedade. Outro efeito comum e nocivo: o sentimento de autodesvalorização. Prova disso é a já citada pesquisa da Mindsight, na qual 45% dos entrevistados afirmam que a pandemia tem afetado sua autoestima no âmbito profissional. Por mais que seja difícil retomar as rédeas de sua carreira, entretanto, é importante cuidar de si mesmo e manter o ânimo.

Mas o ideal mesmo, dizem os especialistas, é não deixar que a situação chegue a esse ponto crítico.

Quanto mais tempo o indivíduo leva para se dar conta da estagnação, afinal, menos criativo, mais operacional e enraizado ele vai se tornando, o que aumenta os riscos de se tornar obsoleto.

Quais as recomendações para colocar novamente a carreira nos trilhos?

Para Lúcia, da Adecco, é imprescindível que o profissional:
• se desafie e se atualize o tempo todo;
• jamais se sinta 100% confiante em sua cadeira;
• não fique esperando a empresa abrir vaga com seu perfil, pois pode ser que isso nunca aconteça;
• comece a analisar seu contexto e planejar seus próximos movimentos desde que assume o cargo;
• questione-se onde quer (e pode) estar não necessariamente daqui a cinco anos, mas sim nos próximos dois ou três;
• busque outras percepções, além da sua própria, sobre seu perfil e desempenho, fazendo três perguntas simples e diretas a colegas e/ou pares de sua confiança. São elas: ‘quais pontos acha que devem ser melhorados em mim?’, ‘em que aspectos sou muito bom no meu trabalho?’, e ‘como é trabalhar comigo?’;
• use as conversas ativas com sua liderança como um termômetro para entender o momento vivido pela companhia – e medir percepção e perspectivas;
• não fique com receio de perder o emprego a ponto de se tornar obcecado por seu trabalho. Tire esse peso das costas e não se sobrecarregue, a fim de manter a mente vazia e produtiva.

“Hoje o problema maior é a pandemia, amanhã pode ser outra coisa”, afirma Lúcia. “Sejam lá quais forem as circunstâncias, a regra de ouro é dar sempre o seu melhor e fazer o que estiver a seu alcance para movimentar sua carreira.”

Quer receber notícias do 6 Minutos direto no seu celular? Estamos no Telegram (t.me/seisminutos) e no WhatsApp (https://6minutos.uol.com.br/whatsapp).