Se você trabalha numa empresa ou repartição pública – e já assistiu a algum episódio do Big Brother Brasil 21 – com certeza notou semelhança. Os bafafás do reality show e os do seu ambiente profissional são bem parecidos.

“É verdade, muito do que acontece no BBB se passa todo dia nas firmas por aí”, diz Eduardo Migliano, fundador e presidente da 99jobs, empresa de soluções para o setor de RH. As duas situações, segundo ele, envolvem o convívio forçado entre pessoas. E, muitas vezes, até competição.

Por isso, fizemos uma seleção dos participantes do reality show – e suas maiores confusões –  e comparamos com situações reais de trabalho. Para ajudar quem está envolvido nessas intrigas corporativas a ter mais leveza profissional, consultamos alguns especialistas em recursos humanos.

Confira:

1 – As confusões de Karol Conká

A cantora Karol Conká entrou no BBB com um discurso de empoderamento feminino, assumindo um papel de liderança. Mas dentro da casa o que chamou mais a atenção foi a forma como ela humilhou os mais fracos, brigou com outra mulher por achar que ela estava interessada no seu homem e criou treta com quem não ficou do seu lado.

Como é na empresa:

“Alguns chefes realmente confundem ser líder com ser alguém que só manda e isso é muito antiquado”, diz a psicóloga Ester Luchini Cunha, consultora de desenvolvimento e aprendizagem da FLG Brasil, consultoria de RH. Em alguns casos, quando a chefe é mulher numa empresa onde o ambiente é muito machista, essa extrapolação da autoridade também acontece. “Acaba sendo a única forma dessa líder se impor. Numa situação dessas, a única maneira de tornar o ambiente de trabalho melhor é deixá-lo menos machista. Aí ela se desarma”, afirma Ester.

A cantora Karol Conká
Crédito: Reprodução

2 – A saída de Lucas

Pressionado por todos os participantes e se sentindo humilhado, Lucas não aguentou e pediu para sair.

Como é dentro da firma:

Quantas vezes você já não se sentiu assim, foi chorar no banheiro e quis pedir as contas? A atriz Suzana Pires, fundadora do Instituto Dona De Si, de empreendedorismo feminino, diz que para sair disso é preciso compreender o cenário em que você está – e distinguir quem é e quem. “Isso te dá poder de escolha: saio ou fico – e até quando?”, diz a atriz e empresária. “Colocando dessa maneira, parece que é superfácil conseguir emprego. Sei que não é. Mas ter consciência da savana em que está inserido e conhecer os ‘bichos’ – e porque cada um age como age – é mais difícil que mudar de trabalho. O que não dá é para implorarmos compreensão de gente cruel. Se o Lucas tivesse desistido de implorar pela compreensão de Lumena, ele não teria sido tão atingido por ela. A consciência te protege e te faz saber o que esperar do outro.”

3 – Pediu autorização para a Lumena?

A psicóloga Lumena Aleluia virou meme por apontar o dedo para metade da casa e aos berros mostrar que ela é dona absoluta da verdade. Defensora dos direitos LGBT, ela não apoiou Lucas quando ele pediu para conversar sobre o beijo que trocou com Gil.

Situação na firma:

Os chefes pregam um discurso e põem outro em prática. Isso é muito comum, segundo a psicóloga Ester. “A liderança, por exemplo, cobra pontualidade, respeito aos horários, mas está sempre chegando atrasada. Outro exemplo: o chefe proíbe o reembolso de certos gastos pelos funcionários. Mas quando é a chefia que tem esses gastos, pede o reembolso. Quando esse tipo de coisa acontece, a chefia perde a credibilidade. Todo mundo na equipe percebe que a coisa está descambando para o ‘faça o que eu digo, não faça o que eu faço’ e isso pode minar todo o desempenho do time.”

Lumena/Crédito: Reprodução

4 – A competição de Projota

Durante uma briga entre Gil e Pocah, o rapper disse que queria que o Gil tivesse jogado a influencer na piscina, assim eles seriam desclassificados. Também pegou mal o fato dele ironizar Lucas após uma batalha de rimas.

Situação firma:

O clima de competição é exacerbado a ponto de um colega achar que quanto pior fica seu companheiro de trabalho, melhor é para ele. “Num ambiente de trabalho tão competitivo assim, ninguém colabora com ninguém e existe desconfiança entre todos. Nenhuma empresa sobrevive assim por muito tempo”, diz Ester.

O rapper Projota
Crédito: Reprodução

5 – Os grupinhos

Na casa, está clara a formação de três grupos: o da Karol Conká (Lumena, Projota, Fiuk, Arthur e Pocah), o de Gilberto (com Juliette e Sarah) e os “em cima do muro”, que eventualmente ficam um pouco lá e um pouco cá.

Situação na firma:

Formação de grupinhos e fofoca entre eles. “Quando um gerente ou um grupo se sente ameaçado por um subordinado – ou por outro grupo de colegas – as intrigas começam. Geralmente, é o lado que se sente ameaçado que começa a criar fofocas”, diz o psicólogo Robson Paiva. “A Karol Conká, por exemplo, se sente ameaçada e vai cancelando as pessoas. Se junta com outros ‘brothers’ para eliminar quem não dá o protagonismo que ela quer ter”, exemplifica Paiva.

Uma maneira de tentar amenizar esse clima é conversar e tentar entender de onde vem a insegurança desse gerente ou colega. “Claro que cada realidade é uma, não temos receitas generalizadas para todos. Mas entender a realidade, a insegurança de quem complica seu dia, fazer cair a máscara dessa pessoa, pode ser a saída. E se não der certo, passe um e-mail para os superiores, com cópia para essa gerência (isso é muito importante), dizendo que você já tentou conversar e que o problema persiste, dando exemplos.”

5 – Come e dorme: Pocah

A cantora só dorme. Quando levou foi chamada a acordar, criou briga com Gil.

Situação na empresa:

“O funcionário percebe que não é indispensável e por isso começa a criar uma cena toda de brigas e ciladas para continuar sobrevivendo”, explica Paiva. A funqueira dorminhoca, na opinião de Ester, também representa o colega de trabalho que faz o famoso “corpo mole”. “É o mais odiado da equipe, pois deixa de fazer a parte dele e sobrecarrega os outros.” Sistemas de avaliação de desempenho aqui podem ajudar muito.

6 – Rodolffo e a diversidade

O cantor sertanejo demonstra irritação com o comportamento de Gilberto, gay assumido. Nas redes sociais, vem sendo acusado de homofobia.

Situação na firma: Nas grandes empresas, a diversidade virou um mandamento. Por isso, quem ainda tem um viés racista ou homofóbico tenta segurar o que fala para não ficar mal dentro da empresa. “Com certeza ainda estamos na fase do medo de pegar mal”, diz Suzana. “Mas acredito que toda mudança interna tenha origem num sentimento ou num constrangimento. Então, se hoje os homens estão com medo de serem vistos como misóginos, já é um começo para eles realmente deixarem de ser; porque essa preocupação os leva a pensar no que vão falar e como vão agir na vida pessoal e profissional.”

Mas há um porém: quando a chefia ainda é machista, racista ou preconceituosa. “Esse posicionamento vai influenciar nas decisões de promover uma pessoa e outra não. Por isso, as companhias mais modernas estão formando colegiados para tomar essas decisões. Assim a coisa fica menos centrada em uma pessoa só. E fazendo recrutamento às cegas, para não privilegiar etnias, gêneros, faixas etárias”, diz Ester.

7 – O cancelamento

Nas primeiras semanas do reality, a casa não gostou do comportamento do Lucas e os participantes começaram a ignorá-lo e até a maltratá-lo.

Situação Firma:

“Quando meu chefe fala algo comigo, eu ouço. Mas na hora de contra-argumentar, ele vira as costas e vai embora”, conta a funcionária de uma empresa. A vítima desse abuso, segundo Paiva, tem que saber que essa falta de respeito, mostra, no fundo, as frustrações internas do agressor. “O que o irrita nas pessoas, na verdade é algo com que ele se irrita consigo mesmo. Algo não resolvido.”

Para Suzana, a situação é radical: não há como resolver situações como essa a não ser a demissão dessa gerência. “Não tem condição da pessoa ser líder dessa maneira, simples assim. A instituição que insiste em deixar uma pessoa que humilha seus pares em cargos de liderança vai perder seus talentos, um a um. Confundir poder com humilhação é ter valores invertidos, e para consertar isso só muita terapia e querer se transformar; o que, geralmente, essas pessoas não aceitam.”

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