O cargo de gerente costuma envolver, por si só, certa solidão. Afinal, gerentes não fazem parte do time de diretores, que estão em degrau hierárquico superior, mas também não são vistos como parceiros pelos subordinados.

Em outras palavras: os diretores tendem a vê-los como representantes da força de trabalho operacional, enquanto os funcionários menos graduados os enxergam como representantes da empresa, compromissados muito mais com os interesses corporativos do que com as necessidades dos trabalhadores.

Um caminho para diminuir a solidão seria se aproximar dos colegas do mesmo patamar hierárquico, mas esse movimento esbarra numa realidade muito conhecida no universo corporativo: a rivalidade entre gerentes.

Trata-se de um fenômeno com diversas origens. Em primeiro lugar, é comum que os setores da empresa que cada gerente representa disputam os mesmos recursos internamente. Além do mais, gerentes de diferentes áreas frequentemente se tornam rivais no caminho de ascensão dentro da organização, pois atuam à beira de um funil rigoroso que só concede a alguns a oportunidade de continuar crescendo na carreira.

Tensões clássicas

Essa rivalidade se torna ainda mais acirrada quando envolve disputas entre os gerentes que trabalham longe da sede da empresa e aqueles que, instalados fisicamente próximos da cúpula, têm mais oportunidades de fazer o jogo político.

Os gerentes que estão na chamada “linha de frente” são aqueles que se relacionam diretamente com os clientes e supervisionam as operações e a atuação dos funcionários nas filiais, nas fábricas, nas lojas e nos serviços de entrega.

São profissionais que, em geral, passam a maior parte do tempo circulando. Já os gerentes que ficam na sede tendem a ter uma atuação mais estratégica. Passam o dia sentados em frente a um computador, lidando com números.

As tensões esses entre dois perfis são clássicas, principalmente porque os gerentes que trabalham longe do escritório central da empresa tendem a considerar que os outros são “alienados” e não sabem o que se passa na “vida real” da corporação.

Falta de reconhecimento

Essas tensões foram ampliadas pela pandemia, concluiu a pesquisa Vozes presentes, mesmo à distância, produzida pelo Workplace, ferramenta de comunicação e colaboração para empresas do Facebook.

Realizado em duas fases, fevereiro e agosto, o estudo ouviu 9.000 gerentes de ambos os perfis em oito países, incluindo 800 no Brasil. Os resultados evidenciam o quanto os gerentes que trabalham longe da sede da empresa se sentem isolados e pouco valorizados.

O Brasil registrou a maior diferença entre as duas percepções: 58% dos gerentes de linha de frente não se sentem valorizados pela empresa (o maior índice registrado nesse item entre os oito países), enquanto a mesma sensação é relatada por apenas 17% dos gerentes que trabalham no escritório central (percentual que só não é menor que o do México, 15%).

Os Estados Unidos registraram a menor diferença entre os dois perfis: 47% dos gerentes da linha de frente e 33% dos gerentes alocados nos escritórios centrais se consideram menos reconhecidos do que deveriam.

Descompasso na comunicação

Grande parte dos problemas nasce das dificuldades de comunicação. Os gerentes da linha de frente estimam desperdiçar, em média, 7,7 horas de trabalho por semana por conta da comunicação pouco eficiente. Trata-se do tempo perdido com situações como pedidos reiterados por informações e trabalhos realizados em duplicidade.

Paradoxalmente, a crescente diversidade das ferramentas de comunicação disponíveis parece ser um obstáculo. Enquanto os gerentes estão bem mais abertos, em geral, à troca ágil e instantânea de informações por mensagens de texto ou áudio, os diretores tendem a criar obstáculos para essa comunicação mais direta e informal.

Os diretores continuam dando preferência ao e-mail corporativo, ferramenta em geral detestada pelos gerentes da linha de frente, pressionados no cotidiano pelos problemas que pipocam um atrás do outro e precisam ser rapidamente resolvidos.

Assim, curiosamente, quanto mais as tecnologias de comunicação evoluem, menos efetivas se tornam aos olhos dos gerentes – 65% deles afirmaram não dispor de ferramentas de comunicação adequadas durante a pandemia.

Batalha por relevância

Outro grande problema identificado é o nível de autonomia e de participação estratégica dos gerentes na linha de frente. Apenas 50% deles dizem se sentir com autonomia para tomar decisões, enquanto 57% dizem que não são regularmente consultados sobre decisões que afetam as metas do negócio.

Ao menos nesse ponto houve alguma evolução por conta da pandemia. O nível percebido de autonomia cresceu um pouco no período, e o Brasil se destacou: em fevereiro, antes da pandemia, 67% dos gerentes brasileiros com atuação na linha de frente não se sentiam incentivados a tomar decisões, índice que caiu para 48% seis meses depois.

Para o vice-presidente do Facebook Workplace, Julien Codorniou, os resultados da pesquisa evidenciam que os gerentes estão em meio a uma batalha para ser ouvidos. “O caminho é priorizar uma comunicação inclusiva, produtiva e aberta a novas ideias, fazendo com que esses profissionais se sintam conectados, envolvidos e com autonomia”, avalia.

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