A agenda ambiental ganhou maior relevância para as empresas brasileiras que pretendem atrair investidores estrangeiros para seus negócios. “Vamos ver cada vez mais investidores demandando políticas de sustentabilidade das empresas. É claro que uma imagem não positiva do Brasil lá fora não ajuda em nada as empresas a atrair investimento. Essa é uma agenda cada vez mais crucial”, disse Alessandro Zema, presidente do banco americano Morgan Stanley no Brasil.

Para Zema, o tema ambiental tem sido cada vez mais uma exigência maior de quem investe em companhias brasileiras. “A gente está vendo essa transição acontecer. E também virou um tema central para as empresas que estão se preparando para emitir ações no mercado.”

A retomada das agendas de reformas e disciplina fiscal, ao lado da questão ambiental, são os pontos mais importantes para atração de investidores para promover o crescimento do País, em meio à pandemia do coronavírus. A seguir, os principais trechos da entrevista:

O combate ao desmatamento da Amazônia virou tema global ambiental. O Brasil pode afugentar investidores estrangeiros?

Quando você pensa em investidores olhando o Brasil de uma forma mais ampla, os investidores estão olhando três coisas essencialmente. As reformas para gerar o crescimento, disciplina fiscal e a agenda ambiental. A gente precisa remover os entraves que limitam nosso potencial de crescimento. Recebemos um “passe livre” em 2020 (por conta da pandemia), mas precisamos dessas reformas para ontem. A questão de sustentabilidade vem ganhando cada vez mais importância. E as nossas ações aqui no Brasil e a nossa narrativa em relação ao meio ambiente têm deixado bastante a desejar.

Os incêndios na Amazônia ajudaram a jogar luz sobre o assunto?

O assunto entrou em evidência com os incêndios na Amazônia, mas é uma agenda que vem ganhando relevância no mundo todo. Na semana passada, vimos uma empresa (a Rumo, do grupo Cosan) emitindo “green bond” (título de dívida para financiar projetos que trazem benefícios ambientais) e veremos mais ações neste sentido, assim como investidores demandando políticas de sustentabilidade das empresas. É claro que uma imagem não positiva do Brasil lá fora não ajuda em nada as empresas a atrair investimentos. Essa é uma agenda cada vez mais crucial.

Como as empresas brasileiras estão encarando esta questão? Lá fora, o Brasil é visto como um País que desmata.

As empresas brasileiras, aliás, esses 38 líderes empresariais que enviaram a carta ao vice-presidente (Hamilton Mourão), representam boa parte das grandes empresas que têm feito muito sobre o tema de sustentabilidade. As empresas têm de educar os investidores – tanto de dívidas quanto de equities (ações) – com relação a tudo que elas têm feito. Você tem uma narrativa de Brasil que não é positiva, mas você tem uma narrativa das empresas, de tudo que elas têm feito ao longo dos anos. O governo parece que entendeu isso e está trabalhando através da formação do Conselho da Amazônia, tomado medidas mais assertivas para proteção do meio ambiente.

O que tem sido debatido entre empresas e investidores?

Eu diria que há alguns anos, quando a gente fazia um roadshow (apresentação) para emissão de dívida, o tema sustentabilidade costumava ser uma página no apêndice da apresentação. Hoje, quando você tem uma reunião como investidor, dos 40 minutos de conversa você gasta 10 minutos falando sobre os temas de sustentabilidade daquela empresa. O crescimento da importância da sustentabilidade tem sido exponencial e a gente precisa dar prioridade ao tema.

O sr. acha que as operações de mercado de capitais vão considerar o tema ambiental para se captar recursos?

Isso cada vez mais tem sido parte da agenda dos investidores de renda variável também. A gente vê esse movimento crescendo bastante no mercado de dívidas. Estamos vendo essa transição acontecer. Então, para as empresas que se preparam para fazer oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) e emissão de ações de empresas já listadas na Bolsa, esse já é um tema central na agenda dos investidores.

As operações de mercado de capitais começaram a voltar à agenda. O pior da crise ficou para trás?

Antes da pandemia, havia expectativa de crescimento de 2% do PIB; CDS Brasil (indicador de solvência do País) por volta de 150 pontos, super baixo; déficit fiscal de 2%; Ibovespa a 120 mil pontos. Ou seja, céu de brigadeiro total.

No momento mais crítico da pandemia, em abril, vimos CDS de 150 para 400; o Ibovespa com pior performance global de todas as bolsas; real com a pior performance diante do dólar; déficit fiscal acima de 10%. Agora, o momento é positivo para o mercado de capitais por alguns motivos: enorme liquidez global, de US$ 7 bilhões despejados pelos bancos centrais, movimento de transferência de renda fixa para variável em andamento, além de um distensionamento da crise política nas últimas semanas. Nesse momento, o investidor vê que Brasil está relativamente barato.

As operações de mercados de capitais vão voltar no segundo semestre?

Voltaram mais rápido do que imaginava. Achava que esse movimento iria ser em setembro, mas começou em junho. Estamos acreditando que a agenda de reformas vai ser retomada.

Há espaço para reformas nesta crise?

Acho que o Brasil perdeu tanta competitividade global ao longo das últimas décadas, por não ter feito as reformas necessárias, que gostaria de pensar que os Poderes, mais os empresários e o sistema financeiro deveriam estar todos alinhados e tentar fazer essa agenda de reformas acontecer. A gente não tem mais tempo a perder para fazer as reformas que faltam. A gente não pode se dar ao luxo ter o sistema tributário mais complexo do mundo, de não fazer a reforma administrativa como deve ser feita e reformar marcos regulatórios.

Vai demorar muito para o País retomar a economia?

A velocidade dessa recuperação vai depender de como o consumo vai voltar. Um elemento importante para o consumo tem a ver com essa diferença que foi reportada há alguns dias pelo Ministério da Economia. A diferença entre o auxílio emergencial e o decréscimo da perda salarial. Em maio, por exemplo, o decréscimo da perda salarial foi de R$ 35 bilhões e o (pagamento do) auxílio, de R$ 45 bilhões. Então, esses R$ 10 bilhões adicionais podem ir ou não para o consumo. Se forem para o consumo, a gente pode pensar numa recuperação mais rápida.

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