Após ensaiar um mergulho pela manhã, na esteira de nova oferta de US$ 1 bilhão em swaps cambiais pelo Banco Central, o dólar ganhou força ao longo da tarde e encerrou a sessão desta quinta-feira em leve alta, na casa de R$ 5,51, em sintonia com comportamento predominante em relação a divisas emergentes pares do real.

Segundo operadores, embora haja agora um vendedor de peso no mercado, na figura do BC, as incertezas fiscais domésticas dão certa “rigidez” à taxa de câmbio. Rumores de que o governo pretende combinar a extensão do auxílio emergencial para além deste ano com a adoção do Auxílio Brasil (versão ampliada do Bolsa Família) reforçaram a percepção de uma guinada populista do governo e do Congresso já de olho nas eleições de 2022 – ainda mais após mudança na legislação do ICMS sobre combustíveis na Câmara, que representa, na prática, subsídios ao consumidor bancados por eventual redução da arrecadação dos Estados.

A avaliação é que, diante de tantas dúvidas no campo político e fiscal, investidores permanecem na defensiva e evitam assumir posições maiores a favor do real. Esse quadro se agrava com a proximidade do fim do ano, época de maior pressão de saída de recursos com remessas de lucros e dividendos, que, desta vez, pode ser turbinada caso a reforma do Imposto de Renda avance no Senado. Também há pressão externa diante da redução da liquidez com a retirada de estímulos pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), provavelmente a partir de novembro, e o início das especulações sobre o momento de alta de juros nos EUA em 2022.

Pela manhã, o dólar desceu até a mínima de R$ 5,4694 (-0,72%) ainda na primeira hora de negócios. Já no início da tarde a moeda americana passou a trabalhar em terreno positivo, correndo até a máxima de R$ 5,5301 (0,38%) por volta das 16h. Com uma desaceleração na reta final, o dólar à vista encerrou a sessão cotado a R$ 5,5161, em alta de 0,13% – o que leva a uma valorização de 0,35% na semana e de 1,28% no acumulado do mês.

Como anunciado, o Banco Central realizou nesta quinta novo leilão de 20 mil contratos de swaps cambiais (US$ 1 bilhão), que foi totalmente absorvido. Contando com a oferta da quarta, já são US$ 2 bilhões de dinheiro novo no mercado. Além disso, houve também nesta quinta a rolagem de 15 mil contratos (US$ 750 milhões) que vencem em janeiro.

“O efeito do leilão foi fazer o dólar despencar pela manhã. Mas a moeda teve uma reversão de tendência de novo ao longo do dia com as incertezas em relação à questão fiscal. Essa intervenção do BC é paliativa, tem efeito no curto prazo. Precisamos de medidas concretas de ajuste fiscal para ver o dólar cair”, afirma Zeller Bernardino, especialista em câmbio da Valor Investimentos.

Na avaliação do gerente da mesa de derivativos financeiros da Commcor, Cleber Alessie, o Banco Central mostra, com essas intervenções, que “está, de fato, mais vigilante em relação ao câmbio”, em meio às pressões inflacionárias globais, turbinadas por aqui em virtude da crise hídrica. “A dúvida que fica agora é a razão que levou o BC a atuar. Se foi porque está incomodado com o nível da taxa de câmbio ou se foi para atender uma demanda de compra específica de algum player que poderia deixar o mercado disfuncional”, diz.

Alessie chama a atenção para o fato de que, mesmo diante do quadro de elevações seguidas da taxa Selic, e da nova postura do Banco Central no mercado de câmbio, não se vislumbra perspectiva de queda do dólar. A moeda brasileira é punida tanto por questões externas quanto internas. Em um ambiente global ainda conturbado, investidores estrangeiros usam posições vendidas em real como hedge. Por aqui, não há apetite por apostas mais contundentes na moeda brasileira, por conta da percepção elevada de risco gerada pela ameaça de abandono, mesmo que informal, do teto de gastos.

“Os estrangeiros quando querem enxugar risco vendem o real. E o horizonte interno político e fiscal não é animador. Tudo indica aumento de gasto e mais populismo com a eleição que está por vir”, diz Alessie, ressaltando, porém, que mesmo assim a alta recente do dólar parece exagerada. “Nem o BC está conseguindo quebrar essa dinâmica.”

Nesta quinta, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), afirmou que o debate em torno da reforma do Imposto de Renda e da PEC dos Precatórios é essencial para definição das fontes de financiamento do Auxílio Brasil. Lira não descartou a possibilidade de prorrogação do auxílio emergencial, mas ressaltou que tudo tem que transcorrer com respeito ao teto de gastos. O presidente da Câmara, expoente do Centrão, encampou a cruzada de Jair Bolsonaro contra o aumento dos combustíveis e foi o principal articulador da alteração da cobrança do ICMS sobre combustíveis.

O diretor da Wagner Investimentos, José Faria Júnior, ressalta que, a despeito das intervenções do BC, as quedas do dólar são muito limitadas, uma vez que há “uma total indefinição das contas públicas para o próximo ano” em meio à possibilidade de “renovação do auxílio emergencial rompendo o teto dos gastos”. “Alertamos para o grande risco de reversão da tendência de longo prazo, de baixa para alta, com chances do dólar subir em direção a R$ 5,70”, afirma Júnior, em relatório.

A Diretora de Assuntos Internacionais e de Gestão de Riscos Corporativos, Fernando Guardado, afirmou em evento, no fim da tarde, que não houve mudança na atuação do Banco Central no câmbio. “Não pretendemos mexer no nível do dólar. Fomos claros sobre os leilões de overhedge. Queremos diminuir a incerteza”, disse.

Entre os indicadores do dia, o IBGE divulgou pela manhã que o volume de serviços subiu 0,5% em agosto ante julho, segundo a Pesquisa Mensal de Serviços – resultado levemente acima da mediana de Projeções Broadcast (0,4%). No exterior, as atenções estiveram voltadas a indicadores da economia americana. O índice de preços ao Produto (PPI) nos Estados Unidos, que subiu 0,5% em setembro ante agosto, abaixo das expectativas dos analistas. Já o número de pedidos de auxílio-desemprego caíram 36 mil na semana encerrada em 9 de outubro, para 293 mil (expectativa era de 318 mil).

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